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O que temos a ver com as meninas de turbante da Amazônia?
Texto: Ricardo Voltolini
Fotos Associacao Sarapo
e Cláudio Pinheiro
No país que ocupa a nada confortável 69ª posição no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), e o sexto posto entre as nações mais desiguais do planeta, o que não faltam são problemas sociais à procura de soluções criativas, originais e economicamente viáveis. Há causas para todos os gostos, de todos os tamanhos, em todas as direções que se queira mirar. Algumas delas, inusitadas ou surpreendentes - para dizer o mínimo - acabam circunscritas a determinadas regiões, longe portanto dos olhos da mídia, da atenção dos governantes e mais ainda dos corações solidários de quem mora no Sul e no Sudeste.
Este é o caso das “meninas de turbante” da região amazônica, vítimas de uma fatalidade ao mesmo brutal e fortuita cujas cicatrizes poderiam ser evitadas com educação preventiva, boa vontade das autoridades públicas e uma solução técnica vergonhosamente barata. As “meninas de turbante” nascem em Belém (PA), vivem próximo aos rios e igarapés de Altamira, Barcarena, Cametá e Santarém; e como todos os ribeirinhos têm no barco o seu principal meio de transporte - estima-se haver, naquela região, perto de 50 mil precárias embarcações, lá conhecidas pelo nome de “popopô” em referência ao barulho dos motores que conduzem diariamente os habitantes locais para o trabalho, a escola, o lazer e a igreja. O mesmo barco que se presta à locomoção das populações ribeirinhas é também o núcleo de uma tragédia sem similar no mundo que, desde a década de 60, já atingiu algumas centenas de crianças: num breve momento de descuido, as meninas amazônicas vêem seus cabelos compridos enroscarem no eixo descoberto dos motores de popa e acabam vítimas de sumário escalpelamento.
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Não é necessário muito esforço de imaginação para avaliar o que este duro golpe representa para as crianças e seus familiares. Algumas delas não escapam com vida à violência do acidente. A grande maioria, no entanto, sobrevive e carrega consigo para toda a vida seqüelas físicas e psicológicas, feridas que não se fecham mesmo após anos de um tratamento de reparação penoso, traumático e caro para suas famílias e para o sistema de saúde pública. Tão sofrido quanto a perda dos cabelos e das sobrancelhas, no entanto, é ter que cobrir, com lenços, as chagas de uma dor que corrói a auto-estima, compromete o direito tão feminino à vaidade e exclui socialmente crianças que deveriam ter o direito de uma infância e adolescência felizes. As “meninas de turbante” perdem a vontade de se alimentar, de ir à escola, de namorar e de conviver com os amigos. Jamais integram as estatísticas da PEA (população economicamente ativa). Nem contribuem para o crescimento do PIB nacional, na medida em que, envergonhadas, escondem a sua dor da sociedade e passam a viver na dependência econômica dos pais.
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A paciente preparada para cirurgia |
Durante o longo período de reabilitação, marcado por sucessivas cirurgias, seus pais são forçados a abandonar as atividades de subsistência para acompanhar o tratamento, o que compromete o orçamento doméstico e amplia ainda mais o drama familiar. O eixo dos barquinhos não destrói apenas a vida de crianças. Cerca de 35% dos acidentes ocorrem com a população adulta. A maioria (80%) vitima as mulheres, cujos cabelos são mantidos longos por causa de convicções religiosas. Foi pensando em pôr fim ao destino trágico dessa gente que, em 2001, nasceu a Associação Sarapó, graças a uma iniciativa de Cláudio Britto. Cansado de atender as meninas escalpeladas, o cirurgião plástico juntou amigos médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais e criou uma ONG para atuar na prevenção do problema e no atendimento médico e psicológico das vítimas e seus parentes. O que move Britto e seus colegas é, além de solidariedade, um justificável sentimento de indignação: a solução para o drama das “meninas de turbante” custa pouco, mais precisamente R$ 115,00 por embarcação, o valor exato de um protetor de eixo, criado especialmente pela Albrás - Alumínio Brasileiro S.A. A introdução dessa carenagem, de fabricação simplória, reduziria para zero o risco de escalpelamento nos popopôs amazônicos, deixando de desperdiçar vidas que fazem muita falta.
Como sabem que este custo não pode ser arcado pela maioria dos barqueiros ribeirinhos, os briosos militantes da Sarapó – o nome é uma homenagem a um peixe da região – trabalham duro para obter o financiamento a fundo perdido do projeto com bancos e organismos internacionais. E enquanto os recursos não chegam, dedicam-se de um lado a educar as mulheres a prender os cabelos durante as viagens, e de outro, a melhorar os recursos de tratamento e dar suporte às famílias atingidas. A Sarapó é um dos inúmeros exemplos da militância cidadã que trabalha anonimamente nos bastidores do Brasil.
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Em defesa das “meninas de turbante”, que na verdade, representam um pequeno mas ilustrativo estrato de excluídos num país que se acostumou a tratar os seus filhos mais pobres como cidadãos de segunda classe, Brito e seus amigos trazem consigo algumas qualidades que dão corpo e alma ao Terceiro Setor e o transformam no mais envolvente campo de experimentação de soluções sociais no Brasil contemporâneo: a indignação diante do sofrimento da comunidade, a iniciativa de resolver os problemas sociais sem esperar sentado pelas respostas demoradas do Estado, a criatividade de construir soluções que atacam as causas e não apenas reduzem os efeitos, a flexibilidade para buscar alternativas economicamente viáveis e, sobretudo, a necessária persistência para seguir adiante contra toda sorte de obstáculos. A Sarapó é uma espécie de Brasil que o Brasil não conhece. Mas que teria orgulho de conhecer.
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Ricardo Voltolini é jornalista, comentarista da TV Cultura e consultor de Terceiro Setor e Responsabilidade Social da Oficio Social.
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