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Boaventura e sua moto
Vitorino Freire-MA - 1969
Uma história, uma vida.


Texto: Bman Castro
Fotos:Boaventura de Castro e
Victor Vasconcelos
 
 

        No Arapá, interior do Ceará, um jovem chamado Boaventura Vieira de Castro, tem um desejo: depois de ver a primeira lambe-lambe de sua vida, ficou encantado e desde então procurou conhecer os segredos da fotografia. Naquela época, em1952, fotografia era novidade, algo que causava muita curiosidade.

Casal Antonio Joaquim e Isaura
Itaituba-PI - 1957
                Boaventura casa-se com Mirtes Marques Castro e foram morar em Floriano no Piauí em 1954. Foi aí que Boaventura resolveu perguntar a um fotógrafo como era tirar foto. Mas ele não o ensinava, só brincava com o jovem que, curioso, insistia com as perguntas. Até que um dia a sua máquina fotográfica lambe-lambe quebrou e Boaventura se propôs a ajudar no conserto. Sem alternativa, o fotógrafo aceitou a ajuda e os dois ficaram amigos, compartilhando informações.

        Boaventura então, comprou pelo reembolso postal uma máquina chamada mínie (tipo descartável) através de um anúncio publicado numa famosa revista chamada “O Cruzeiro”. O valor era de 12 cruzeiros. A idéia era aprender mais sobre fotografia e tirar fotos para revelar e copiar.

        Comprou também um Manual do Fotógrafo de Jean Anderson – editora aurora ano 1956, que ensinava a construir uma máquina fotográfica em casa, tirar as fotos e revelar. Tudo era por demais emocionante. De posse do manual, começou a construir uma máquina com uma lente de óculos, caixa de papelão e tecido preto. Toda essa história foi acompanhada pela sua fiel ajudante, que sempre o incentivou em suas descobertas, a sra. Mirtes, sua esposa.
Agora era descobrir como fazer a química para revelar e copiar as fotos, pois ampliar já foi depois. A fórmula era segredo, assim como o manual. Metol 2 grm, hidroquinona 4 grm, silfito 14 grm, carbonato 20 grm, bromoreto 20 grm essa era uma das fórmulas. Todo esse material era comprado na cidade.

 
            Trocar filme da máquina, ou revelar/copiar só a noite, pois não havia um ambiente específico para isso. A ampliação era feita na própria máquina. As fotos eram 3X4 e 5X7, tiradas da família e dos amigos.

        Tempos depois ele compra sua terceira máquina uma Kapsa - Vascromat (que tem até hoje), para revelar estas fotos ele colocava o filme no espiral do tanque portátil. A paixão pela fotografia foi crescendo e ele conseguiu adquirir mais algumas máquinas, além é claro das lambe-lambes fabricadas pelo próprio Boaventura. Fez também um ampliador de caixas de madeira que descia e subia no lugar do “fole”, com lentes de lupa, adquiridas na cidade.

Fotografando uma cliente a moda antiga.
                        Era um ano difícil, no Ceará a seca de 1958, mas no Piauí, não foi tão forte. Boaventura agora com dois filhos vai muda-se para Parnaíba-PI e começa a se interessar por eletrônica. Cria os filhos Aias e Neemias, quando a mais nova nasce e recebe o nome de Bman, que significa a reunião de todos os nomes da família (Boaventura, Mirtes, Aias, e Neemias). Só em 1973, agora morando em Fortaleza é que ele monta seu próprio estúdio fotográfico com a ajuda e interesse do seu filho Neemias, que mais tarde torna-se fotógrafo profissional no Rio de Janeiro.

            Até hoje Boaventura mantém sua coleção de máquinas e fabrica lambe-lambes, tem um pequeno laboratório em casa e é sem dúvida alguma uma de suas paixões. Com 73 anos de idade e vários cabelos brancos, recorda seu tempo de juventude com a fotografia ainda tão rara.Fica perplexo com tamanha tecnologia, vivendo a era digital na qual os filhos e netos brincam de tirar foto e exploram essa assustadora transformação.

Lambe-lambe feita pelo proprio fotografo ainda em perfeito estado.
                            A fotografia segundo ele “começou com uma enorme curiosidade de um rapaz matuto no interior do Ceará” . Não existia nenhum projeto social por trás disso apenas o desejo de conhecer a fotografia. As fotos eram tiradas dos pais, amigos, filhos e parentes. Todas eram doadas sem nada em troca e entregava as fotos prontas, a festa era grande, pois a fotografia naquela época era novidade e rara, mas tudo era feito entre família... esses eram seus clientes. As fotos passavam de mão em mão, de casa em casa, algum colocavam com uma moldura na parede da sala, como é de costume até hoje em alguns lugares do sertão.

Mestre Boaventura e sua camera em 1959.
                Só ganhou uns trocados com fotografia depois em Fortaleza quando resolveu colocar um “foto” como era chamado.

        Ele costuma dizer:
“a fotografia conta a própria história da vida, através de uma lente e ninguém pode modificá-la”
 
“é fascinante ver como as pessoas naquela época ficavam maravilhadas com a fotografia, se elas fossem vivas hoje não acreditariam na foto digital, naquela época só existia foto preto e branco e isso já era um acontecimento raro”.
 

O mestre e sua coleção de cameras.
              O Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza, sempre solicita a sua coleção de máquinas e principalmente a lambe-lambe, que ele mesmo fabricou, para exposições como atração aos visitantes, assim como também alunos da UFC - Universidade Federal do Ceará, que na semana da fotografia alugam essas máquinas para exposição ou algum projeto especial. Interagindo com os aparelhos os alunos aprendem os segredos da fotografia e a dedicação por uma paixão.

        Boaventura tornou-se um colecionador de peças raras, não só na fotografia mas também com algumas outras raridades de livros e relógios antigos, sua outra paixão. Recentemente escreveu um livro de histórias e contos do Nordeste, com o título “Selervairir” , onde conta um pouco de sua paixão pela fotografia. É um exemplo de pai e homem de princípios, os quais passa aos seus filhos até hoje.
 
     
 
 
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