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| Fábio na praia com seu pai. |
O olhar dos incluídos
Entrevista concedida a Márcia Silva *
Fotos: Arquivo pessoal Fábio Roberto
Em tempos de inclusão social, direto no olhar traz o depoimento de Fábio que, de altíssimo astral, nos conta sobre sua trajetória escolar, os desafios e aprendizados de uma pessoa portadora de deficiência e os caminhos da inclusão. Em sua experiência destaca-se a importância da escola e talvez não por acaso tenha escolhido a educação como profissão.
Meu nome é Fábio, hoje eu tenho 24 anos estou cursando o 1º ano do curso de pedagogia. Sou portador de deficiência visual com diagnóstico de retinose pigmentar, tenho mais ou menos 5% de visão, que me possibilita enxergar vultos, obstáculos grandes nas ruas, poste telefone, pessoas, carros, pontos de referência assim a porta de uma loja, um portão...
Já nasci com essa deficiência, mais ou menos até os meus 19 para 20 anos eu enxergava um pouquinho mais, cerca de 10%. Aí a doença deu a esticada final e dos 20 aos 22 anos eu perdi cerca de 5%. Na verdade, não mudou muito a minha percepção, porque foi uma perda gradativa, lenta... Eu não senti nada, assim, da noite pro dia. O que veio a mudar é que em dia de sol eu enxergo menos, quando tem muita claridade eu tenho uma dificuldade maior para andar.
Família
Na minha família todos enxergam normalmente, o meu foi um caso a parte, digamos assim. Minha mãe biológica, quando eu tinha um ano de idade, mais ou menos, ela foi embora. Na época ela devia ter quinze, dezesseis anos, era uma cidade provinciana, Canoinhas, Santa Catarina, uma família super conservadora, acho que acabou não agüentando a pressão e aí colocou o pé na estrada...
Então irmãos de sangue mesmo eu não sei, mas todo o resto, os tios, os primos enxergam normalmente...
Fiquei com meus avós até seis anos e aí a minha mãe hoje, Dona Alzira que é minha tia e madrinha de batismo me pegou, me levou para São Mateus do Sul. Lá comecei a estudar, tive assistência médica, tudo o que eles podiam e até o que não podiam me oferecer eles me deram. Digamos assim, passei a ser cuidado . Até então eu não tinha limites, fazia o que eu queria, do jeito que queria, corria, gritava, pulava... vivia todo arrebentado, não enxergava ... queria correr junto com os outros, imagina o tamanho do estrago, literalmente me arrebentava por aí.
Educação
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| Fabio e seu grande incentivador, Professor Carlão |
Quando fui para São Mateus, lá pelos idos de1987/88 por aí, eu vinha da escola especial, da APAE de Canoinhas, porque a família era simples e como eu não enxergava, eles achavam que tinha alguma síndrome, alguma doença, sei lá, daí me colocaram na APAE... Era especial, era diferente, não sei... como eles não sabiam o que fazer, me colocaram na APAE.
Em São Mateus comecei na Escola Pública. Fui até a terceira série, mas minha família viu que tinha alguma coisa errada, resolveram me tirar no meio do ano e me colocar na escola particular. Cheguei eu no Colégio muito belo e faceiro de uniforme vermelho, bonito, pasta grande... mas não deu... só a quarta série eu vim a reprovar duas vezes. Fui levado para Curitiba no Instituto Paranaense de Cegos. Fora de casa, em regime de internato, posso dizer que o que se aproveitou nesse período, foi o contato com os outros deficientes que eu conheci, então vi que não era o único, que havia casos muito mais graves, muito mais sérios.
Como estava fora de casa pela primeira vez, em liberdade “não assistida”, então eu descobri outro mundo! Com treze anos, morando com mais seis piás, um mais encapetado que o outro e como santo nunca fui, não entrei na fila... reprovei a quinta série de novo, mas foi bom porque tive uma noção do mundo, vi como que funcionava uma cidade grande. Fiz orientação e mobilidade que são as técnicas de você aprender como andar com o uso da bengala. Aprendi a andar de ônibus em Curitiba, um negócio que era fora do concebível.
Em 95 eu voltei pra São Mateus, acho que a intenção era me trazer de volta, porém, no final de 95 meus pais acabaram se separando e voltei para Curitiba.
Fui matriculado no Colégio Estadual, estava com quinze anos... Não me lembro como eram feitas as minhas avaliações, porque eu já não escrevia mais, até a metade da sétima série, aí a gente viu que o caminho era buscar definitivamente o ensino especial. Aprendi o braile, que foi uma luz, não tão brilhante como esperava-se que fosse, mas serviu para dar conta do meu primeiro grau, em 99 fiz o segundo grau. Fui fazer cursinho, afinal de contas eu queria entrar na faculdade!
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| Com os amigos do cursinho, abriu-se um novo mundo |
Na Universidade Federal do Paraná era difícil, na época para o curso que eu queria, passava trinta eu fiquei em 680. Resolvi abandonar. Tentei cursos profissionalizantes no SESC, eles têm um centro de informática focado principalmente no deficiente visual, com programas de fala, leitura da tela, e tem também curso de telefonista, recepcionista, telemarketing... fiz todos!
Minha mãe falou porque você não tenta uma bolsa nesses cursinhos grandes? Passei o resto da semana visitando cursinho, até que cheguei a um no qual fiz uma entrevista com o coordenador que me proporcionou uma bolsa num valor que eu podia pagar. Foi o início da minha ascensão digamos assim.
Cheguei segunda feira, coloquei o pé para dentro do cursinho o fiscal chegou e disse: “boa tarde Fábio, tudo bem? O Carlão (coordenador do cursinho) está na sala dele e quer conversar contigo”. Para minha surpresa, o coordenador já tinha preparado todo mundo do colégio. O fiscal tomou a posição certa que é me dar o braço para eu segurar e foi me indicando tudo por onde estávamos passando.
Ao entrarmos na sala do Carlão, ele dispensou as pessoas que estavam lá e perguntou: “o que você precisa para estudar?” Eu tinha um gravador que era um negócio meio antigo, ele perguntou se precisava mais alguma coisa, tomada... eu disse que ia na pilha mesmo.
Fomos para a sala de aula ele me apresentou: “Esse é o Fábio, ele não enxerga e vai estudar aqui com a gente. Eu quero que vocês dêem toda a assistência para ele”. Daí em diante me integrei no cursinho. Para mim era um mundo totalmente novo, no começo eu não entendi nada, o básico nunca me tinha sido explicado, então comecei a estudar e chegou o final do ano prestei vestibular. Fiquei em 180, já melhorou. Continuei lá e prestei três anos para informática, nos anos seguintes a bolsa foi integral...É todo um mundo que você tem no cursinho...hoje quando eu olho para traz eu digo como eu era feliz!
No terceiro ano fiz um trabalho vocacional e deu Ciências Sociais, preguei fogo passava 80 , fiquei em 120, porém conheci Valdenéia...
O amor está no ar...
Estávamos nós no local de prova e me chega a Val: “Bom dia, Bom Dia”. Alegre como sempre veio pelos braços da professora Idalina, uma pessoa que eu já conhecia de outros tempos e que me deu toda a assistência na educação especial. A Valdenéia sentou ali começamos a conversar, mas não foi muito pra frente. Lá pelas tantas a professora Idalina falou para ela:” Vou te apresentar melhor o Fábio que eu acho que vocês têm alguma coisa que vai dar certo!”
Começamos a nos corresponder... eu fui a Castro (cidade do interior do Paraná onde ela morava) e na mesma ocasião iniciamos o namoro, daí Curitiba pra mim perdeu o brilho. Passei a vir direto para Castro e começou a ter um conflito com a minha família. Eu estava procurando emprego. Entreguei mais ou menos uns oitenta currículos, mas não consegui trabalhar porque apesar de existir a lei que toda empresa com um certo número de funcionários tem que ter um percentual de vagas para deficientes, chega uma cara com um dedinho torto e o médico dá atestado, pronto, é considerado deficiente e preenche a vaga.
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| Apaixonado por automobilismo, Fábio não perde uma corrida! |
Vim prestar vestibular para pedagogia em Ponta Grossa (cidade próxima a Castro), cheguei na casa da Valdenéia no domingo de tarde e o seu pai quis que eu ficasse até segunda para o aniversário dele. Liguei para casa pedindo “autorização”, imagina, com 23 anos eu tinha que pedir autorização, então houve um conflito grave e eu resolvi que era hora de sair de casa.
Teve todo um processo de separação da família. Vim, passei a morar com ela na chácara. Dia 28 de agosto de 2004, nós estávamos casando na Igreja Matriz, dia sete de setembro a gente estava se mudando e até hoje eu sinto um orgulho de entrar dentro de casa e ver que está ali o nosso patrimônio, que está tudo encaminhado na nossa vida...
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| Fábio e sua mãe dona Alzira |
Saiu o resultado de pedagogia, fui aprovado em sexto lugar! Acho que estou aprendendo bastante, estou convivendo com gente da melhor qualidade. Como universitário, consegui um estágio pelo CIEE na secretaria municipal de educação, cultura e esportes de Castro, pretendo no futuro trabalhar na área de supervisão ou direção de escola.
Cego ou portador de deficiência visual?
Você se imagine na rua, aí você me vê vindo em alta velocidade em direção a um poste ou telefone, ai você pensa, você tem que avisá-lo, ai você: “Ei, portador de deficiência visual cuidado com o poste!” POOOM, bateu! Então funciona assim: a expressão “portador de deficiência visual”, vai usar só para algum documento para um negócio mais formal, agora no dia a dia é cego mesmo, afinal de contas somos cegos ou, se quiser, deficiente visual, ... “SENHOR PORTADOR DE DEFICIENCIA VISUAL CUIDADO COM O BURACO” Caiu!
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