Uma história de fotos e descobrimentos
Texto: Ric Pereira
e Márcia Silva
Foto: Laurent Betton
Nascido numa cidadezinha próxima de Marselha, no sul da França, Laurent Betton iniciou na fotografia quase que por acaso. Trabalhava com eletrônica quando foi convidado a se juntar a um clube local de fotografia. Ficou lá uns seis meses aprendeu de um tudo. Depois de um tempo quis saber mais de fotografia e foi para cidades maiores, participou de concursos de fotografia até chegar a Paris na Ecole Lumiere onde fez trabalhos de impressão além dos cursos.
Na primeira vez que veio para Londres trabalhou em estúdios onde aprendeu vários aspectos da fotografia comercial e passou um bom tempo fazendo fotografia de moda contribuindo para ampliar seus conhecimentos sobre o trabalho em estúdio e dos equipamentos.
“Seja lá o que você fizer seja moda, publicidade, comida, casamento, carros as pessoas vão querer te tirar do caminho delas e esse mercado se torna mais difícil em Londres que em qualquer outra parte do mundo. Você tem que ir e se fazer conhecido pelas pessoas, apesar do que tenha aprendido antes, a partir dessas experiências é que você realmente se torna um fotógrafo é também quando você está apto a produzir imagens que digam alguma coisa, essa é a parte mais difícil como fotógrafo.” – afirma
Laurent encontrou dificuldades no início, pois o campo da fotografia é muito competitivo.”É preciso ter muita autoconfiança para ser fotógrafo, como vim da escola aprendi muitas técnicas, e mesmo durante o tempo em estava estudando fiz muitas viagens fotográficas”.
Viajou com nômades na Argélia depois foi para o México e Canadá. Admirador de Josef Kouldelka, Betton acredita que para documentar a vida de grupos nômades como os Tuaregs, deve-se conhecê-los, fazer parte de sua vida, e não somente ir tirar fotos um dia e ir embora. Seu interesse é tentar descrever essas pessoas como seres humanos e não somente como um grupo de pessoas exóticas vivendo no meio do nada. Para isso encontrou na antropologia uma abordagem mais próxima do seu trabalho. Fez vários registros, mas prefere guardar essas fotos para si, como algo pessoal.
Tudo começou quando seus pais lhe contavam como as pessoas viviam com poucas coisas, sem muito conforto, vivendo em tendas. Resolveu procurá-los e acabei chegando ao sul da Argélia.Quatro dias de viagem depois, rumo às montanhas, encontrou uma comunidade de Tuaregs. Tentou aproximar-se, mas eles mudaram de lugar. Mais tarde os alcançou, pois eles andam muito devagar. Pensando que estivesse perdido.no deserto, o grupo o convidou para juntar-se a eles. Nesse convívio aprendeu algumas palavras em Tamasheq (a língua deles) e foi incumbido de algumas tarefas como cuidar de ovelhas, coletar lenha etc.
Os tuaregs sempre oferecem 3 dias de hospedagem para qualquer pessoa que esteja viajando e precise de ajuda. Essa hospitalidade auxilia as pessoas a se locomoverem através do deserto. Depois de 3 dias o visitante precisa começar a participar das atividades do acampamento. “Participava as atividades diárias, depois de duas semanas naquele acampamento eles decidiram se mudar de campo em campo”.
Laurent visitou outros grupos. “Encontrei minha posição na sociedade deles: eu era como um tipo de carteiro que trazia notícias de um acampamento a outro”. Assim foi acolhido por vários grupos, porque conhecia muitas pessoas e trazia mensagens importantes como, por exemplo, relatar os cuidados em caso de picada de aranha.
Inicialmente não tirou foto alguma. Achava que devia conhecer bem o grupo para não ser invasivo. Um dia, porém, sua câmera escorregou da mochila e eles viram. A partir daí começou a fotografar “Talvez esse não tenha sido o melhor caminho pra se fazer isso, mas eu estava mais consciente da minha integridade e fotografando as coisas certas, não apenas ir lá por 3 dias fotografar tudo e ir embora , seria como se alguém chegasse na sua casa tirasse umas fotos e fosse embora, você não sabe quem são, não falam sua língua e isso não ajuda muito. Eu queria ter esse tipo de posição privilegiada onde eu podia me sentir confortável para fazer as fotos”.
Essa experiência teve conseqüências em sua técnica que era focada principalmente nas fotos preto e branco. “Decidi usar minha própria fotografia, trabalhando e desenvolvendo novas técnicas, novos processos”. Sem a pretensão de ter uma estratégia para uma grande exibição de estúdio Betton gosta de fazer pesquisas experimentando closes, retratos e também documentando pequenos aspectos da vida incluindo seus pais e vários tipos de coisas como animais, flores, comida, eles são uma despretensiosa tentativa de desenvolver novas técnicas de luzes, técnicas de fundo e também assunto especifico “Isso é basicamente montar um grande estúdio em frente a casa dos meus pais e por o gato no meio e fotografar o máximo eu que puder...gosto de coisas desse tipo... coisas simples da vida”.
Para ele a função da fotografia como documentário deve se alterar no futuro porque muitas imagens do dia a dia tem-se perdido com as novas possibilidade de descarte imediato e principalmente porque os fotógrafos de hoje há uma tendência de se fazer imagens apenas com fins de venda. Mas acredita que a fotografia tem um grande poder de expor as fraquezas dos humanas ou expor a pobreza no mundo “O que é muito fácil dizer com palavras até você ver a imagem de uma criança quase morrendo. A fotografia continua tendo esse poder de mover as pessoas através de imagens e essa é a mais nobre função”.
Laurent não tem preconceitos em relação à fotografia digital e pensa que os dois processos ainda devem conviver por um longo tempo uma vez que cada um possui características próprias que proporcionam diferentes possibilidades de produção e veiculação de imagem. Mas revela uma preferência pelo filme pela sua capacidade de demonstrar a interpretação especialmente quando é colorido.
Para quem quer ingressar na carreira, Betton, bem humorado deseja “Boa sorte!” e diz que a melhor forma de começar é arrumando um trabalho com salário regular. Trabalhando com agência de casamentos, por exemplo, é possível fazer em torno de 20 a 30 produções por ano e isso faz com que se pegue o jeito. Além disso, existem outros aspectos complexos como preparar todo material para os trabalhos, conseguir o cliente, fazer pagamentos, fazer o seguro. A experiência de trabalhar para os outros ajuda o fotógrafo a se organizar, a ser muito acurado, adquirindo confiança para fazer o trabalho sozinho. Para o experiente fotógrafo, é importante alguém mostrar o caminho, pois assim aprende-se melhor os segredos da profissão. Claro que isso tolhe um pouco a auto-expressão, porém lembra que se pode exercitá-la fazendo trabalhos paralelos sem o compromisso de não poder errar. “Mas quando você faz um trabalho comissionado precisa ter um pequeno time, pessoas em que possa confiar e que possam ver os erros se os fizer, todo mundo erra, você não pode evita-los, mas tudo bem se perceber que errou e consertar”.
Outro ingrediente importante num fotógrafo segundo Laurent é a automotivação. “Ninguém vai te ligar ou bater nas portas para você, essa é uma coisa que você terá que ir e fazer você mesmo”.