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Uma História de Natal
Texto: Márcia Silva
Fotos de arquivo

            Era novembro e começávamos a conversar com as crianças sobre o Natal. Havia aquela magia no ar somente proporcionada pelos sonhos infantis sobre a possibilidade de ver seus desejos realizados.

            Separei algumas meias velhas com a intenção e transformá-las em fantoches, mas chegada a hora da roda de conversa, surgiu  o tema:

Fábio: Acho que Papai Noel é um gnomo, que tem sangue preto.
Kim: Gnomo?
Fábio: É, ele é mágico, como é que ele entra na casa da gente? Ele fica pequinininho e entra pela chaminé!
Maria: Na minha casa tem chaminé!
Kim: Que nada, na minha casa não tem e ele entra assim mesmo! Ele é mágico!
Carolina: Ele tem uma chave mágica e entra na casa da gente!
Kim: É, mas papai Noel mente!
Juliana: Mente?
Kim: É a gente pede uma coisa e ele traz outra!
Juliana: É que às vezes ele não tem, tadinho! O que você pediu?
Dudu: Papai Noel não existe!
Tumulto geral em defesa do bom velhinho
Dudu: Minha mãe falou que ele não existe!
João: quem dá o presente é a mãe!
Fábio: eu acho que ele existe! E vou pedir um monte de brinquedo pra ele!
Juliana: A minha mãe está sem dinheiro então eu vou pedir para o Papai Noel!
Alice: Vou fazer isso também!

            Vendo que havia um interesse geral na identidade daquele ser misterioso que trazia presentes (mesmo que não fosse exatamente o que pediram), trouxe histórias sobre origem do papai Noel, e de outras crenças de Natal, entre elas o costumes de se colocar meias na janela com os pedidos. Propus que decorassem suas meias, pintando com canetinhas coloridas, e depois sugeri que escrevessem os seus pedidos.

            Dudu enfeitou a meia, mas não quis escrever a carta ao Papai Noel, afinal se ele não existia seria pura perda de tempo e Dudu era muito prático! Eu disse então:“Seu papel está aqui, mas se não quiser escrever tudo bem, pode pegar um livrinho para ler ou brincar no cantinho, mas cuidado para não atrapalhar seus colegas!”

            Ainda tentou convencer seu inseparável companheiro Fábio – “você vai escrever, mas Papai Noel não existe?!” Não obteve sucesso, pois Fábio lhe respondeu “ Se você não quer escrever, fica lá lendo livrinho, eu quero ganhar meu brinquedo!”

            Dudu foi brincar, mas vendo os colegas tão entusiasmados, disse,”Eu não acredito, mas vou escrever assim mesmo!”

            Penduramos nossas meinhas na janela e nos dias que se seguiram trouxe uma camisa que enchemos de jornais velhos amassados, uma calça, e dessa forma foi surgindo o “nosso” Papai Noel.

            Todos os dias brincávamos com ele, mas Dudu permanecia irredutível. Porém, uma tarde entramos na sala e o bom velhinho havia sumido! Fiz cara de surpresa e sugeri a turma que fossemos procurá-lo. Perguntamos para todas as pessoas que encontramos no caminho, até que Martin encontrou Cristina a Professora que ocupava a sala de manhã. Ela disse preocupada que de manhã ele estava lá. Mas eu sorri e disse, “Então Martin só tem uma explicação, ele foi dar uma volta!” Dudu retrucou, “mas ele é de jornal, ele não anda!”

            “Só tem um jeito, disse eu mudando de assunto, vamos ensaiar a nossa banda para a apresentação, que daqui a pouco os pais vão estar aqui!”

            Na hora marcada os pais chegaram e eu levei as crianças para o quintal para a nossa apresentação, cantamos e tocamos um sem número de músicas quando finalmente a secretária apareceu convidando a todos para o lanche.

            Ao entrar na sala as crianças não só viram o Papai Noel de volta como também uma caixa para cada uma delas personalizada com seu nome e um bilhete escrito:

“Queridas Crianças
            Muito obrigado pelo carinho, ajeitando a minha roupa e me dando vida outra vez. Tem muita gente que diz que eu não existo, que é tudo invenção, mas na verdade o Fábio tem razão eu sou meio mágico, embora não seja um Gnomo! Sou mais parecido com as estrelas que a gente sabe que estão lá durante o dia quando o sol brilha muito e a gente não pode vê-las, mas sabemos assim mesmo que estão lá. Eu existo todas as vezes que vocês acreditarem que podem ser melhores e que podem realizar seus sonhos.

            Ah, tem um recado pro Ângelo: eu não sou mentiroso não, acontece que nem sempre eu consigo trazer o que vocês pediram. Sabe como é, são muitas crianças, mas o presente é para dizer que eu gosto muito de vocês e que acredito em vocês, tanto quanto acreditam em mim.

Beijos
Papai Noel”

            Deixei que as crianças viessem na frente, para poder confirmar meu álibi, mas cheguei a tempo de ver a expressão de surpresa no rosto de Dudu, exclamando “ele vive, ele vive!”

Existe melhor presente que este?

 
 
 
     
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