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A sociedade se mobiliza na alfabetizacao de adultos.
Texto e fotos: Newton Cesar Santos

Alunas em uma das salas do Kolping de Guaianases.
          Se os governos (federal, estaduais e municipais) são normalmente vistos como os principais responsáveis pelo atraso do Brasil na questão da educação, as iniciativas da chamada sociedade civil só fazem se multiplicar. São inúmeras as organizações não-governamentais (ONGs) e entidades assistenciais que se dedicam à Educação de Jovens e Adultos, em todo o país, e que vêm contribuindo para o combate a essa chaga social. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 33 milhões de analfabetos funcionais (pessoas com menos de quatro anos de estudo) e 16 milhões de pessoas com idade acima de 15 anos ainda não alfabetizadas.

          Ao final do sétimo Encontro Nacional de Educação de Jovens e Adultos (ENEJA), realizado em Brasília entre 31 de agosto e 3 de setembro deste ano, representantes dos 26 fóruns estaduais e 34 fóruns regionais divulgaram manifesto pelo qual reconhecem “os avanços alcançados pela EJA nos últimos anos, seja no campo jurídico, normativo e técnico; seja pelas políticas recentes do Governo Federal”. No entanto, os educadores, gestores públicos, pesquisadores e representantes de universidades e organizações não-governamentais que participaram do ENEJA expressaram que “o que foi feito nesse campo ainda é tímido, diante da realidade vivida por milhões de brasileiros, porque não foi dada, até agora, no Brasil, suficiente atenção às necessidades de aprendizagem de jovens e adultos”.

São Paulo

          De acordo com o Mapa do Analfabetismo, pelo qual o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) avaliou os 5.561 municípios do país, São Paulo é a cidade brasileira com o maior número absoluto de analfabetos com mais de 15 anos: 354.044, que representam 4,5% da população estabelecida na capital paulista. São mais de 350 mil pessoas que vivem na maior cidade da América Latina sem saber ler e escrever e, portanto, sem condições de exercer cidadania em plenitude. Além disso, estima-se que mais de 1,2 milhão de cidadãos que vivem em São Paulo são analfabetos funcionais.

          Para ajudar a reduzir esse problema, a Comunidade Kolping do Brasil (associação civil sem fins lucrativos e de natureza filantrópica) vem desenvolvendo um projeto educacional de grande repercussão, centrado na unidade Kolping de Guaianases, na região leste da cidade. Tudo começou há seis anos, quando o pároco Antônio Luiz Marchione, conhecido como Padre Ticão, convidou a líder comunitária Maria de Fátima Rodrigues para dar início à formação de núcleos educacionais na região de Guaianases. “Eu trabalho com alfabetização desde a década de 70, seguindo a metodologia de Paulo Freire”, diz o pároco. “Comecei com dois grupos de voluntários em 1978, primeiramente na Vila Ré e depois em Ermelino Matarazzo, e, durante o governo da Luiza Erundina, chegamos a ter mais de 600 grupos”. Depois vieram os governos Maluf e Celso Pitta, que não apoiaram a iniciativa do Padre Ticão. Nos últimos anos, contudo, ele instituiu o projeto “Educar Para Mudar”, que conta com quase 500 alunos que recebem aulas de informática, em Ferraz de Vasconcelos, e incentivou Maria de Fátima a desenvolver e coordenar o “Programa Saber Mais”.

          Ela conta que, a partir do convite do Padre Ticão, reuniu amigas e juntas redigiram o projeto voltado à formação educacional de jovens e adultos. Contando com ajuda da Secretaria Estadual de Educação, que repassa recursos para a manutenção e formação de instrutores, equipes pedagógicas e material escolar, Fátima e equipe estabeleceram 450 núcleos educacionais na capital e em cinco cidades da Grande São Paulo – a maioria localizada na zona leste. “A carência do pessoal que mora na região é muito grande, e nós percebemos que teríamos muito trabalho pela frente”, afirma a coordenadora.

Elisabete Dantas (coordenação pedagógica), Valter Vieira (contador), Maria de Fátima Rodrigues (coordenadora do 'Programa Saber Mais') e Rita Angelita (pedagoga)

          Os núcleos foram formados em entidades assistenciais, igrejas católicas, escolas públicas e salões comerciais. “Hoje temos 450 educadores e orientadores pedagógicos, que atendem cerca de 12,5 mil alunos”, conta Fátima. Para 2006, existe a previsão de abertura de mais 150 núcleos. A pedagoga Rita Angelita, que trabalha no projeto desde o início, explica que o “Saber Mais” não utiliza cartilhas para o processo de alfabetização, já que são ineficientes para o trabalho com adultos. “Os educadores, depois de passarem pelo processo de formação pedagógica, têm autonomia para a utilização de materiais que sirvam para o entendimento do dia-a-dia dos alunos”, explica. O projeto se utiliza do modelo educacional construtivista, pelo qual o conteúdo das disciplinas do Ensino Fundamental é transferido a partir das experiências vividas pelos próprios alunos. De acordo com Rita, as aulas se realizam de segundas a quintas, durante duas horas por dia. As sextas-feiras são dedicadas à capacitação pedagógica. “As classes têm em média 20 alunos, com idades que começam com 15 anos e sem limite de idade máxima – no momento temos um aluno com 92 anos”, conta a pedagoga.

          Elisabete Costa Dantas, da coordenação pedagógica, ressalta a importância da alfabetização de adultos nas regiões de periferia. “Além de poderem adquirir um maior exercício de cidadania, essas pessoas passam a exercer influência positiva em seus núcleos comunitários”, afirma. “Afinal, junto com a alfabetização eles recebem toda uma formação educacional, com palestras, cursos, atividades recreativas, que elevam o nível de conscientização de cada um”. Muitos dos alunos, incentivados pelo gosto do aprendizado, assim que deixam o “Saber Mais” fazem provas e ingressam na rede pública de ensino. “Eles conseguem retomar um fio que muitas vezes se perdeu na infância, e que pode fazer muita diferença na vida deles”, explica Fátima, emocionada.


 
 
 
     
 
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