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Cecília e Ana
Texto e Fotos: Newton Cesar Santos
Cecília Brito tem 70 anos, mora na Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo, e há quatro meses vai duas vezes por semana ao Kolping de Guaianases, situado perto da Subprefeitura do bairro. Ali ela conheceu Ana Lopes Ferreira Avo, de 68 anos, que mora ali perto e freqüenta o local há cinco anos, quase diariamente. As duas são risonhas, animadas, simples e estão aprendendo a ler e escrever.
“Venho aqui com muito gosto, porque todas as pessoas são muito legais”, diz Cecília, que em outras duas oportunidades tentou aprender a ler e escrever, mas acabou desistindo. “Quando a gente fica velha é difícil fazer as coisas entrarem na cabeça”, explica, rindo. A amiga concorda: “Eu tenho muita dificuldade; já sei escrever muita coisa, mas não consigo ler muito bem ainda. Aqui eu me sinto como na minha casa e fico muito feliz, porque todo mundo me ajuda”. Nas histórias de vida das duas, mais coisas em comum: infância pobre no Nordeste, trabalho duro desde muito cedo, impossibilidade de freqüentar a escola. Viagem para São Paulo, com muita ilusão, em busca de melhores condições de vida. Casadas, as duas passaram por experiências parecidas. “Tinha que cuidar da casa, do filho e do marido; de que jeito ia poder estudar?”, justifica-se Cecília. “Eu não tive filho, mas sempre tive que trabalhar para poder ajudar meu marido, e nunca me sobrou tempo para livros”, explica Ana.
E como é a vida na cidade grande sem saber ler e escrever? Ana sorri e diz: “É difícil, mas eu aprendi a usar minha memória”. Ela conta que se concentra nas cores dos ônibus que toma para se locomover, nos pontos de referência que vê pelos caminhos, nos desenhos que servem de marca de locais conhecidos. “Fica tudo na minha cabeça”. Cecília, por sua vez, confessa que não tem memória tão confiável. “Eu não sou muito boa para prestar atenção nas coisas. O que eu faço? Saio perguntando para todo mundo até chegar onde eu preciso ou conseguir o que eu quero”. Ao escutar os relatos das duas, fica a impressão de que a vida e o mundo passam como uma seqüência de pessoas e imagens, permeadas por sinais gráficos que para elas são como ideogramas chineses para nós, que não dominamos a língua. Livros, revistas, instruções, receitas, bilhetes, recados – tudo um monte de símbolos, dos quais só se pode ter uma idéia quando acompanhados de imagens, desenhos, fotos.
Apesar disso, as duas não tiram o sorriso do rosto. Dentre tantas coisas em comum, um sonho: as duas gostariam de poder ler a Bíblia, para não dependerem de outros para lhes falarem das palavras de Deus. |
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