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  Conseqüências da Violência na vida de Crianças e Adolescentes
Texto: Lenir de Almeida Quetz
Fotos Daniel K. Gebhart, Peter Yarranton, Ophelia Cherry e Sara Hoffman

            O trabalho voluntário com crianças e adolescentes tem revelado que a violência doméstica, em seus vários matizes, interfere diretamente nas relações que elas estabelecem com as pessoas à sua volta.

            A dificuldade em manifestar atitudes de confiança, de manter relações amigáveis ou até mesmo a reação de agredir por medo de ser agredida, faz com que entrem em círculos viciosos, chamando para si atitudes menos amáveis daqueles com quem convivem.

            Outra conseqüência da violência vivida pelas crianças é a instalação da depressão e o do sentimento de inferioridade tão prejudicial para as ações futuras. Os sentimentos de culpa ou de vergonha também estão sempre presentes. Porque não receberam o amor que precisavam para sentir-se seguros, consideram que suas atitudes foram responsáveis pela agressão recebida. A pessoa invadida por esses sentimentos, não consegue sair do lugar, não tem forças para buscar soluções para a resolução de seus problemas mantendo-se numa atitude de autopiedade que os impedem de avaliar seu potencial criativo. Nos relacionamentos interpessoais, os outros terão que estar sempre disponíveis ou se sentirão melindrados por sentirem-se rejeitados.

            Para quebrar essas atitudes repetitivas que os tornam arredios ao convívio social, somente a prática de um amor incondicional, para que se sintam aceitos do jeito que no momento sabem manifestar. Assim, poderão experimentar o sentimento de pertencimento a um grupo, e ter um espaço onde se sintam acolhidos do jeito que são.

A agressão pode ser expressa ostensivamente quando deixa marcas no corpo pela tortura física, como também de maneira mais sutil pode-se violentar profundamente a constituição íntima da criança quando se manifesta sob a forma de indiferença, negligência, de abuso de poder, de abuso sexual, nos seus vários aspectos (apelos à sensualidade e erotismo precoce).

            O atendimento a essas crianças vítimas de violência, no sentido do resgate de sua auto-estima, demanda tempo, dedicação e preparo dos voluntários que prestarão assistência. Tomando-se por base o atendimento ao reforço escolar. Quando se detectam manifestações das conseqüências das agressões sofridas, pode-se desenvolver um trabalho através de uma equipe multidisciplinar incluindo psicólogos, recreadores, professores, médicos, advogados, fisioterapeutas de acordo com a demanda de cada caso específico. Outro aspecto importante é o suporte da escuta do psicólogo às angústias vividas pelos educadores que lidam mais diretamente com essas crianças e adolescentes, e, que suportam no dia-a-dia a transferência das suas emoções em desarmonia. Todo esse trabalho requer atitudes de perseverança e um amor sempre renovado, exigindo tempo e dedicação de quem se propõe a interagir com essas crianças, para fazer renascer nesses corações o sentimento de confiança que será à base do processo de construção de uma nova forma de estar no mundo, mais segura e equilibrada.

            Dessa forma, pode-se levar as crianças a entender que seus familiares e os que os agrediram estão tão ou mais necessitados de amor quanto eles próprios. Chegando a este nível de compreensão podem barrar a violência não a reproduzindo em suas relações interpessoais.

Na verdade, vivemos num mundo de relações, e nem sempre sabemos separar o que é nosso e o que do outro. Por vezes repetimos atitudes de exclusão, de indiferença ou mesmo de descaso em relação àqueles que não nos são muito agradáveis ao convívio.

            Muitas vezes, a escola que deveria ser espaço de acolhida da realidade dessas crianças sofridas é mais um espaço de intolerância por valorizar mais os bem comportados e felizes. Porém, quando essas crianças encontram educadores dispostos a dedicarem tempo a elas, tudo se modifica. A escola pode funcionar como uma primeira triagem para os atendimentos posteriores. Às vezes, não se pode atuar diretamente sobre casos mais complicados de agressão. Nesses casos é importante proceder ao encaminhamento de denúncia aos conselhos de direitos das crianças e adolescentes e conselhos tutelares, para que tomem providências de controle social de violação de direitos. Mas em muitos casos somente a atitude compreensiva dos educadores, e sua interação com a família podem amenizar o sofrimento de muitos.

            A abordagem da família muitas vezes pode trazer a solução de casos que aparentemente seriam de difícil solução.

            Este fato foi verificado no caso de M. menino de sete anos, que manifestava grande dificuldade nos seus relacionamentos, mantendo-se sempre muito agressivo em relação a todos que por ventura atravessassem seu caminho. Vítima de maus tratos por parte de um pai violento e castrador. Como extensão, a mãe também se mantinha muito oprimida pela violência do pai, nada fazendo para amenizar o sofrimento de M. Foi o apoio da avó materna que possibilitou dar a segurança que mãe e filho precisavam para barrar o círculo de violência que envolvia a todos. Hoje M. é uma criança tranqüila, até manifesta atitudes de carinho. Não convive com o pai. A presença dele fazia mais mal do que bem. Se a avó de M. tivesse desistido diante das agressões que recebeu não teria contribuído para trazer a alegria e a segurança ao seu coração sofrido.

            A certeza de ser aceito apesar da maneira como manifesta seu pedido de socorro é a chave para se produzir as mudanças que se quer fazer.

Lenir de Almeida Quetz é psicóloga em Juiz de Fora – MG
 
 
 
     
 
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