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  Dusica Embleton: eu estava lá quando tudo começou.
Texto: Ric Pereira
Fotos: Ric Pereira/Focvm Images e Darko Dozet Branislav Lucic

Dusica Embleton agora ja pode voltar a sorrir.
        A história que vamos conhecer hoje é o testemunho de alguém que viveu os traumas do violento conflito ocorrido na então Iugoslávia, em 1998 que durou 78 dias e resultou na morte de 1200 civis.
       Em um sábado frio e cinzento lá estava eu, no local combinado, esperando Dusica (Duda para os amigos) para a entrevista. Ela me manda uma mensagem: “vou chegar atrasada”. Meia hora depois ela chega. Enquanto saboreia um capuccino começa a falar com sua voz pausada.

       Toda aquela situação teve inicio devido a recusa do presidente Slobodan Milosevic em assinar um tratado de paz em Kosovo, entre a Albânia e a Sérvia. Os americanos vieram para a Sérvia e os ataques começaram porque eles estavam apoiando a Albânia que, por sua vez, queria tomar Kosovo, que sempre foi um país independente e agora estava prestes a ser invadido. Como alguém pode entregar um país assim tão facilmente? Não se entrega um país sem luta, sem sangue.

Bombas explodem por toda a cidade
        Antes dessas guerras começarem, no tempo da Iugoslávia, a nossa vida era muito boa: tínhamos uma vida confortável. Meu pai e minha mãe trabalhavam, e construíram uma casa grande toda mobiliada. Eu ia fazer compras na Itália, Áustria e Alemanha; viajava bastante. Quando o Presidente Tito morreu, os políticos começaram a reclamar porque não queriam dividir o país com muçulmanos. Quando a guerra começou em 99, eu me senti horrível, com muito medo.

Bebes concebidos durante a guerra.
       Eram 8 horas da noite, eu trabalhava em uma casa de jogos, o som estava alto e, de repente, senti o chão tremer. Já haviam me dito que naquela noite começariam os ataques, mas eu não acreditava. Quando as sirenes soaram pude perceber o perigo e, depois de meia hora que a primeira bomba foi lançada, meu chefe me mandou ir para casa. Tentei por um longo tempo pegar um taxi, mas não consegui. Foi quando apareceu um conhecido e me deu carona. Eu simplesmente me joguei dentro do carro e pedi que me levasse para casa. Eu estava muito nervosa; ele me deu um copo d’água e me disse para ficar calma. Pôr volta de duas horas da manhã cheguei em casa e encontrei minha mãe no jardim com meu pai e meu irmão. Já tinham jogado três bombas em diferentes pontos da cidade.

Criancas brincam no pos guerra.

       É uma situação terrível, você não sabe o que vai acontecer depois e fica naquela tensão. Meus sobrinhos estavam em pânico, meu irmão havia preparado alguns cobertores para protegê-los. O governo já havia anunciado na TV que era melhor que as pessoas se abrigassem em bunkers ou porões; aquela foi a pior noite da minha vida.

       Os americanos estavam nas ruas e os ataques aconteciam pela manhã, paravam à tarde e recomeçavam a noite, mas a gente nunca sabia em que momento eles iriam ocorrer e essa situação ficou assim por vários dias. Eu continuava indo ao trabalho, mas meu chefe me falou para não ir mais, pois não tinha sentido continuar com o clube aberto porque já não havia clientes. Ele também não tinha dinheiro para pagar minha rescisão e meu pagamento foi em carne, verduras, frutas e mais algumas coisas que havia no restaurante. Então me disse: é melhor eu te dar isso porque ninguém sabe quanto tempo isso vai durar. Cheguei em casa cheia de sacolas e todos riam por eu ter recebido meu pagamento em daquela forma.

O povo comemora o fim dos bombardeios.

       A situação não mudava e eu estava ficando desesperada, sem saber o que fazer. Eu tremia, meus pais vieram me fazer companhia e assim minha casa estava sempre cheia de gente. Depois de três semanas de ataques as pessoas foram se acostumado e voltaram aos seus afazeres.

       Como haviam cortado o suprimento de energia elétrica, vivíamos à luz de velas. Muitas crianças foram geradas naquela época porque como não havia muito o que fazer, as pessoas praticavam mais sexo. A gente ficava jogando, bebendo, usando camisetas com alvos desenhados no peito. Todo mundo ficou um pouco maluco, a gente se pergunta hoje como conseguimos viver daquele jeito.

       O alvo, no início, eram os prédios do exercito, pois eles não planejavam atacar a cidade por muito tempo. Acreditava-se que depois de dois dias de ataque Milosevic assinaria o acordo. Mas ele se recusou a assinar e eles continuavam com os ataques que agora já não eram apenas em instalações militares, mas também a prédios civis.

So restou a destruição.

       Eles começaram a atacar áreas da cidade, como prédios residenciais, escolas e trens de passageiros, muitas pessoas morreram. Foi cortado o suprimento de água e tínhamos que usar uma bomba muito antiga para captar água de um poço. Minha mãe tinha uma velha máquina de fazer pão, mas que funcionava bem, e ela fazia pão todo dia. Havia suprimentos para vender, mas ninguém tinha dinheiro para comprar. Mesmo assim, ninguém morreu de fome, todos tinham três refeições diárias, não consigo explicar como.

       Começamos a receber ajuda de outros países: Grécia e Rússia nos mandavam comida e remédios. Muitas pessoas ficaram doentes por causa da fumaça e fuligem que havia por toda a cidade. As noites eram muito escuras e eu não o conseguia ver minha mãe ao meu lado no jardim. Quando as bombas explodiam ficava tudo claro e podia-se ver tudo. Algumas partes da cidade estavam em chamas.

Pontes destruidas

       Depois de 78 dias o cenário que ficou era muito triste: pontes destruídas, vários prédios de TV derrubados, crateras por toda a cidade, pessoas morrendo por doenças causadas pelo urânio das bombas, todos os tipos de câncer.

       Recebemos muita ajuda, mas nosso medo era reconstruir tudo e os bombardeios recomeçarem. O que nos restaria ?  Nada.

       Dusica Embleton é da Servia e Montenegro, é casada com um cidadão inglês e vive em Londres, que foi recentemente atingida por atentados terroristas

 História

          A região da antiga Iugoslávia reunia sete povos, três religiões principais e dois alfabetos (latino e cirílico). Sob a liderança de Tito, é estabelecido o regime comunista em 1945. A nação é organizada como uma federação de seis repúblicas (Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia-Herzegóvina, Montenegro e Macedônia). Nos anos 60, Tito dá o status de região autônoma a Kosovo e a Voivodina, que pertencem à Sérvia. Em 1980, com a morte de Tito, ressurge o nacionalismo entre sérvios. Em 1991, Eslovênia e Croácia proclamam independência, após um plebiscito. A seguir, a Macedônia declara a independência, e Montenegro, em plebiscito, decide permanecer na Iugoslávia. Em 1992, é a vez da Bóznia-Herzergóvina proclamar independência via plebiscito e provoca outra guerra. Com o país reduzido a Sérvia e Montenegro, surge, em abril de 1992, a nova República Federal da Iugoslávia.

           Em 1998, aumentam as tensões separatistas na região sérvia de Kosovo, habitada por 90% de albaneses (muçulmanos). O exército sérvio reage brutalmente à tentativa de independência de Kosovo. Diante do impasse, a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) decide atacar a Iugoslávia: era a Operação Força Aliada, liderada pelos EUA. A Otan não obtém uma vitória rápida, como esperava. Em 78 dias de ofensiva, mais de 1,2 mil civis são mortos e quase 1 milhão de kosovares fogem para Albânia, Macedônia e outras regiões da Iugoslávia. A Otan recorre à Rússia (tradicional aliada da Sérvia) em busca de um acordo. Milosevic aceita, em junho, um plano de paz que implanta um governo provisório da ONU em Kosovo. A crise econômica e as sucessivas derrotas desgastam Misolevic. Este tenta fraudar eleições que deram a vitória às oposições e acaba deposto numa revolta popular em 2000. O poder passa para Vojislav Kostunica, nacionalista aliado da Comunidade Européia e dos EUA. As novas autoridades sérvias extraditaram Milosevic para Haia, para ser julgado por crimes contra a humanidade.

 

 
 
 
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