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A Fotografia Pinhole – uma paixão
Texto e fotos: Cleber Falieri

      Nasci em Belo Horizonte, Minas Gerais/BR, no ano de 1961. Cidade onde resido até hoje. Minha formação acadêmica é essencialmente artística. Estudei na Fundação Escola Guignard, em Belo Horizonte, onde fiz os cursos de Artes Plásticas e Arte Educação. Por lá também fui professor do curso livre de fotografia por uns 4 anos.

      Atualmente, trabalho como fotógrafo na Escola de Belas Artes - Universidade Federal de Minas Gerais. Em paralelo, também em fotografia e artes, ministro cursos de extensão, oficinas e workshop em várias escolas e cidades do Brasil, dou assessoria técnica em fotografia e faço serviços de free-lance em geral. Meu trabalho pessoal e artístico tem sempre como suporte a fotografia. Já participei de diversas exposições, mostras e coisas do gênero. Porém, minha produção artística está mais concentrada na fotografia alternativa.

      Sempre gostei muito de lidar com imagens e principalmente com aquela resultante da fotografia, da pinhole. Durante meu período de estudos na Guignard, no curso de fotografia, acabei "redescobrindo" a pinhole (que eu já conhecia através do meu avô) e esta passou a ser minha paixão. Desde então comecei a ter essa fotografia como um exercício diário. Meu primeiro trabalho apresentado em público, foi na verdade o embrião de uma série que ainda não cessou.

      Trata-se de um registro incomum da cidade de Belo Horizonte. No início, apenas experimental, buscando imagens inusitadas dos arredores da escola que ficava bem no centro da cidade. Este primeiro trabalho foi apresentado (aproximadamente 40 imagens), em exposição coletiva dos alunos, na Galeria do Palácio das Artes/BH(1983). Isso veio a me motivar ainda mais e desde então eu não parei. O meu processo de trabalho se dá a partir  de uma idéia, um tema ou mesmo da construção do aparato fotográfico.

      Às vezes a construção da câmera se faz conforme a necessidade do que quero registrar. Por outras, às vezes, o tema se encaixa a partir do modelo criado. Sempre experimental, este é o início de tudo. O que me motiva a fotografar com uma câmera estenopeica é, em síntese, a sua simplicidade, as possibilidades criativas e a surpresa nos resultados.

     De uma certa forma, meu trabalho está ligado à UFMG (Escola de Belas Artes - Dept. De Fotografia e Cinema), onde desenvolvo o site da pinhole (o manual e a galeria). No início eu o criei como uma ferramenta, uma espécie de apostila, para meus cursos. Foi o primeiro trabalho, sobre este assunto, desenvolvido em língua portuguesa para Internet (1997). Eu normalmente trabalho sozinho. Conto com o apoio da instituição apenas no sentido de hospedar o site e pelo fato de ser um funcionário dessa escola, tenho total liberdade para promover e desenvolver atividades relacionadas à fotografia. 

      O diferencial dessa fotografia, como disse anteriormente, está na sua simplicidade, na potencialidade da técnica como forma de aprendizagem e sensibilização e em muitas outras características que a distingue do modelo tradicional. Com uma câmera pinhole, posso conseguir imagens e efeitos inusitáveis, improvável em um equipamento convencional. Enfim, fotografo com pinhole/estenopeica porque me sinto mais próximo da essência da técnica fotográfica. Porque a cada imagem me surpreendo e me agrada sua estética. Fotografar com pinhole é ver a coisa acontecer.

Pinhole

      Pinhole é um processo alternativo de se fazer fotografia sem a necessidade do uso de equipamentos convencionais. O nome inglês Pinhole ou Pin-Hole pode ser traduzido como “buraco de agulha”. Também conhecida como câmera estenopeica, a pinhole é basicamente um compartimento todo fechado onde não existe luz, ou seja, uma câmara escura (pode ser uma lata, caixa, ou outro objeto com revestimento interno escuro), tendo apenas um pequeno furo (de agulha) que funciona como lente e diafragma fixo no lugar de uma objetiva. Esse tipo de fotografia está presente e se firmou no Brasil no início dos anos 70, primeiramente como atividade pedagógica, nas áreas de ciências (física e química) e artes (antigamente chamada educação artística). Até então, tratava-se apenas de atividades e práticas escolares, limitadas à curiosidades e brincadeiras.

      É a partir dos anos 80 que a pinhole ganha fôlego dentro das escolas de comunicação e artes no Brasil. Como uma tendência mundial, a fotografia cada vez mais garantindo seu lugar no mundo e nas artes; a pinhole é talvez, dentro da técnica fotográfica, a que melhor expresse um sentido autoral e artístico. Ela também vai adquirindo um caráter social importante, sendo usada como uma atividade que agrega valores culturais, através de eventos comunitários como cursos, palestras, oficinas, exposições, etc.... Existe hoje no Brasil uma série de projetos onde a fotografia pinhole está inserida, seja na arte, nas atividades acadêmicas (nas escolas universitárias de arte e comunicação), sociais (através dos grupos Latanet em Belo Horizonte, ImageMágica em São Paulo, Lata Mágica em Porto Alegre, Chicaoka em Belém, entre outras) e científicas.

      No campo da arte, como fotógrafo e artista visual, tenho sempre buscado na pinhole minha forma de expressão, sendo considerado um dos poucos que a utilizam sistematicamente. Outros artistas, tais como Neide Jallageas e Paulo Angerami de São Paulo, Miguel Chicaoka e Dirceu Maués no Pará, Ana Rosa no Rio de Janeiro e Bernardo Magalhães em Diamantina (MG) também estão sempre presentes, desenvolvendo trabalhos e divulgando essa fotografia.

      Apesar de discreto, existem vários grupos atuantes e interessados nessa fotografia. A Internet favoreceu enormemente esses contatos, possibilitando a troca de informações e globalizando o conhecimento. Existem hoje na rede, centenas de sites sobre fotografia alternativa pinhole (ou estenopeica). Os contatos favoreceram o surgimento de grupos, fóruns de debates e as comunidades específicas dessa fotografia. Foi criado até o Dia Internacional da Fotografia Pinhole, o Pinhole Day (já em sua sexta edição) que é comemorado sempre no último domingo do mês de abril. Nesta data, em todo o mundo (inclusive no Brasil), acontecem eventos onde as pessoas são levadas a fotografar com uma câmera pinhole e essas são posteriormente enviadas e divulgadas no site www.pinholeday.org. Aqui em BH, também promovemos os eventos do Pinholeday, através da Primeira Fotogaleria, um espaço exclusivo, criado pelo fotógrafo Tibério França. Nesta galeria, sempre no dia do pinhole, abrimos uma exposição com fotógrafos que usam a técnica. A mostra se estende por todo o mês de maio. Além da exposição no Pinholeday temos durante todo o domingo atividades como as oficinas e palestras - tudo totalmente gratuito. É uma grande festa.

      Em resumo: a fotografia alternativa brasileira (estenopeica ou pinhole, como é mais conhecida) vem aos poucos garantindo seu lugar, graças a sua presença na educação. Num país como o Brasil, onde a leitura se resume à revistas e jornais, a opção eletrônica (site) tem um poder mais abrangente e garantido.

       O Estenopeica - Manual Prático de Fotografia Pinhole é uma publicação eletrônica (www.eba.ufmg.br/cfalieri/index.html) derivada de uma apostila criada (há uns 10 anos atrás) para uma coleção didática da Editora da UFMG. Lá você encontra informações técnicas a respeito do Pinhole, inclusive o passo-a-passo sobre como construir uma câmera dessas. Mas se não quiser aposentar a sua máquina convencional pode aprender também a usá-la para fazer esse tipo de fotografia. O resultado é uma fotografia tipicamente pinhole com recursos que nos possibilita, por exemplo, o registro da imagem em um suporte ampliável (que é o próprio filme da câmera).

Cleber Falieri é fotógrafo da Escola de Belas Artes/UFMG - FTC/EBA/UFMG

 
 
 
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