Cantos e Encantos de João Pessoa
Texto: Márcia Silva
Fotos: Edgley Delgado
Dona do ponto mais oriental das Américas, João Pessoa orgulha-se de ser a cidade que primeiro recebe os raios de sol no Brasil. De fato, quem chega aqui logo percebe a diferença. Por mais que o visitante” faça hora” para se levantar, sempre se surpreende ao perceber que saiu “cedo” da cama. Isso porque além de amanhecer mais cedo a sensação do sol às 9:00hs é de um calor de meio dia!
Todo esse calor convida a um passeio pelos 30 quilômetros de praias que banham a cidade, todas muito bonitas e bem preservadas. Conhecer o Farol do Cabo Branco, recém liberado depois de obras de conservação, é obrigatório. Assim como uma visita às praias do Litoral Sul, como Jacumã e a exótica Tambaba, (praia de naturismo), além de Intermares, Camboínha e Poço na vizinha Cabedelo (Litoral Norte).
Se você é daquelas pessoas que não curtem muito a praia pode se refrescar num mar de “verde”. Com duas grandes reservas de Mata Atlântica: O Jardim Botânico, mais conhecido como Mata do Buraquinho e o Jardim Zoológico Parque Arruda Câmara (ou Bica), é considerada a segunda cidade mais verde do planeta, atrás apenas de Paris!
Aqui não é só o lugar que o sol nasce primeiro, é também onde ele mais gosta de se deitar. O título de “Por do Sol mais bonito do Brasil”, é merecido. Em que outro lugar ele adormece ao som do Bolero de Ravel? A tradição começou com Nôra, antiga dona do bar do Jacaré, que fica às margens da praia fluvial de mesmo nome. Nôra colocou a música no primeiro por de sol e ele agradecido se desmanchou em matizes num balé tão lindo que ela resolveu colocá-lo sempre naquele horário. O lugar outrora quase deserto, tinha acesso mais por água do que por terra. Os turistas que vinham ver o encontro das águas do Rio Paraíba com o mar e aproveitavam para ver o espetáculo. Com o tempo ganhou fama, uma boa estrutura e novos bares que aderiram à tradição. Hoje em dia, uma barca passeia pelo rio na hora do por do sol e o saxofonista Jurandy nos brinda com uma versão ao vivo do Bolero. Inesquecível!
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| Ipês Floridos - Parque Solon de Lucena |
Nascida Nossa Senhora das Neves em 05 de agosto de 1585, é a terceira cidade mais antiga do Brasil (atrás de Salvador e São Vicente). Já teve influência espanhola como Filipéia de Nossa Senhora das Neves, foi a holandesa Frederick stadt. Com a saída dos holandeses passou a se chamar Parahyba do Norte, mas nos anos 1930, a morte de um de seus líderes políticos a transformou em João Pessoa.
Os mais de 420 anos de história estão registrados principalmente no Centro da Cidade, próximo ao Rio Sanhauá que abrigou seus primeiros habitantes. Por causa de uma barreira de corais existente na costa os portugueses aportaram no continente através do rio Parahyba. O caminho em direção às praias foi lento e aconteceu mais fortemente depois dos anos 1960.
São muitos os atrativos: o Teatro Santa Roza, um dos mais antigos do Brasil, com uma arquitetura impar, vale a pena visitar. Bem pertinho fica o Prédio dos Correios, atual sede da Prefeitura, Próximo à Praça Aristides Lobo, onde se pode encontrar alguns fotógrafos lambe-lambe.
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Frente Restaurada dos Casarões - Centro |
Pedimos a seu Antônio, um antigo morador, que nos acompanhasse num “tur” pela cidade. Começamos pelo Ponto de Cem Réis que ganhou esse nome porque “antigamente por aqui passava um bonde e bem aqui tinha uma parada. Quando chegava nesse ponto o sujeito tinha que pagar cem réis para continuar a viagem. Daí ficou conhecido assim: Ponto de Cem Réis” conta nosso anfitrião.
Ali também fica o Paraíba Palace Hotel, que foi um importante ponto de circulação de conversas entre políticos. Hoje em dia sua vocação para ser a vitrine de notícias se conservou graças à inteligência do Sr. Reginaldo Dionísio que se instalou lá há 40 anos. Reparando que muitos queriam ler as notícias, mas não tinham dinheiro para comprar o jornal, teve a idéia de colocar páginas de jornais para atrair aos clientes. Diariamente sua parede de notícias é muito disputada. O que faz a diferença é o fato de seu Reginaldo selecionar algumas notícias que são fotocopiadas e pregadas na parede. Outro destaque é a Charge, cuidadosamente exposta num quadro, feita por seu amigo e colaborador Luzardo Alves, afamado chargista da revista O Cruzeiro. Quem passa pela “parede do seu Reginaldo”, pode ver, como em tempos atrás, o povo comentando os principais temas do dia.
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Luzardo e Seu Reginaldo - Marcia Silva/Focvm Images |
Outro dos lugares preferidos de “seu” Antônio é a Praça João Pessoa onde se fazia o footing quando jovem. “Aqui a depois da missa, as famílias de bem se reuniam, os moços e as moças ficavam ‘arrudiando’ a praça para se conhecerem”. A praça abriga prédios famosos como a Faculdade de Direito, onde “os filhos dos bacanas estudavam”. diz saudoso.
O Centro Cultural São Francisco também é outro orgulho da cidade, trata-se de uma das mais importantes construções barrocas do país, erguida a base de grandes pedras calcárias. Também encontramos os famosos conjuntos de azulejos que compõem quadros que contam a paixão de Cristo. No entanto, uma de suas atrações mais interessantes e pouco visitadas são os seus jardins internos, onde fica a fonte Santo Antônio, um convite à paz e à meditação.
Seu Antônio, prossegue indicando a Lagoa que compõe o Parque Solon de Lucena como o seu ponto preferido (aliás o da maioria da população como constatou uma pesquisa realizada recentemente). Ao lado, o Cassino da Lagoa, era também um local onde, no passado, pessoenses ilustres se reuniam. No entanto hoje, a Lagoa é tida como um lugar “de refrigério” e de admirar a florada dos Ipês que a emolduram.
Nosso “guia” chama a atenção para o Liceu Paraibano, situado um pouco acima do Parque. Fundado em 29 de março de 1836, funcionou em outros locais e contou entre seus alunos personagens como: Augusto dos Anjos, Celso Furtado e Elba Ramalho. Seu Antônio nos conta que o prédio atual possui uma arquitetura arrojada que lembra um navio, com requintados vitrais internos. No final do ano, passou por uma reforma e agora está totalmente recuperado oferecendo ao público um lindo presente!
Uma inegável vocação artística, manifestada nas diversas linguagens: Teatro, Cinema, Fotografia, Artes Plásticas, pode ser encontrada por todos os cantos, nas diversas lojas de artesanato, galerias de arte e centros de cultura como o Espaço Cultural, a Casa da Pólvora, o Mercado de Artesanato.
Mas o que mais nos impressiona nessa cidade é a sua gente alegre e hospitaleira. Com os inesperados olhos claros encontrados aqui e acolá em fisionomias que misturam traços indígenas, africanos e europeus, são donos de uma simpatia e um gostoso sotaque.
Seu Antônio que, aliás, é o símbolo e a prova dessa simpatia, se diverte brincando com o próprio jeito de falar: “arrente rra rrai” (= a gente já vai), “é a herança espanhola. Agora o ‘s’ chiado deve ser português, já reparasse como falam chiado?” completa.
Empreendedores, estão sempre atentos às oportunidades. Com o crescente número de turistas, aumentou também a quantidade de lugares que oferecem serviços de acesso a Internet. “Nós começamos com três computadores e já dobramos o número de máquinas com a demanda.”- declara o dono de uma vídeolocadora que diversificou seu negócio para atender a nova demanda. Já o taxista Marcos oferece um atendimento diferenciado para os turistas que querem conhecer a cidade.
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| Suco com iso 9000 - Marcia Silva/Focvm Images |
Andar por essa cidade dá água na boca! Uma paradinha na barraca do Vicente – Rei do Suco, - “é de lei!” - diz nosso anfitrião e me explica a química do famoso suco energético: ”é feito a base de catuaba, guaraná, castanha e leite. Levanta tudo!” Pode confiar, a banca é certificada com ISO 9000!
Não se pode ir embora sem provar a tapioca, a mais famosa fica em frente ao Hotel Tambaú, lá também temos a barraca da Tia Rita com um “trivial variado” delicioso! Se a pedida são os pratos típicos, existem vários restaurantes e bares na orla, não se pode deixar de visitar o Mangai.
De volta à praia do Cabo Branco nos despedimos de Seu Antônio com uma profecia: “Molha os pés nessa água filha, quem põe os pés nesse mar sempre volta!”
Mais informações: http://www.joaopessoa.pb.gov.br/secretarias/setur/acidade/
Centro Cultural São Francisco: ccsaofrancisco@uol.com.br fone (83)3218 4505 |