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Um brasileiro como tantos
Ele chegou a ter muito dinheiro e também viveu na miséria
Texto e fotos: Newton César Santos

Adevaldo, 38 anos, carreteiro

      Adevaldo Silva, de 38 anos, tem uma história de vida com particularidades comuns a muitos brasileiros. Ganhou e perdeu de tudo na vida, emigrou, passou fome e se sentiu solitário em diversas ocasiões, mas mantém a esperança de dias melhores, confiante no “poder das boas ações e na fé em Deus”.

      Menino ainda, ele deixou Limoeiro, no interior de Pernambuco, onde vivia com os pais, e foi tentar a sorte no Recife, morando na casa de uma tia. Ali estudou até a quarta série, quando abandonou a escola e foi “trabalhar e farrear”. Perdeu a confiança e o apoio da tia e decidiu atender ao convite de um amigo que morava em São Paulo. “De pau-de-arara, carona e ônibus cheguei nessa cidade faz 11 anos”, conta, relembrando os primeiros dias na capital paulista. Como tinha experiência de vários anos no setor de construção civil, acumulada no Recife, não lhe foi difícil conseguir trabalho no início. “Meu amigo ajudava, porque conhecia muita gente, e naquele tempo tinha muita obra na região do Morumbi e Real Parque”. Tomou parte de várias obras da construtora OAS e suas mãos estiveram presentes na terraplenagem do projeto Cingapura (conjunto de habitação popular) localizado no bairro Real Parque. É naquela região que mora atualmente. “Meu barraco está todo regularizado. Tenho minha televisão, minhas coisas e está tudo arrumado e limpo. Hoje vivo mais tranqüilo”.
Mas nem sempre foi assim.

Ganhar e perder

      Trabalhando na construção civil, Adevaldo aprendeu soldagem e cresceu na profissão. Tendo “caído na graça de um dos chefes”, foi promovido e começou a ganhar mais do que precisava – ao redor de R$ 600,00 por semana. “Aí comecei a esbanjar com mulheres e bebida”, confessa. “Tinha dias que chegava na favela e gastava R$ 500,00 em bebidas para todo mundo. Naquelas horas todos eram meus amigos, mas quando meu dinheiro faltava não tinha quem não me virava as costas”. As aventuras amorosas também lhe custaram caro. “Cheguei e me ‘enrolar’ com muitas mulheres que não prestavam. De uma peguei uma doença venérea que até hoje me incomoda; uma outra me roubou e fugiu com meu dinheiro; e teve uma, com quem morei cinco anos, que ficou doente e acabou morrendo, só que a família não me deixou pegar nada do que era meu na nossa antiga casa”. Foi naquela ocasião que soube o que era miséria.

      Foram tempos difíceis. “Não tinha emprego, saúde e nem lugar para ir. Passei meses morando debaixo da antiga Ponte do Morumbi”. Adevaldo mendigava para comer e muitas noites achou que ia morrer de frio ou de fome. Um conhecido o ajudou e o levou a trabalhar para um coreano, dono de uma marcenaria, que o explorava fazendo com que ele trabalhasse de 12 a 14 horas por dia, transportando móveis e tábuas de madeira pesadas, para ganhar muito pouco. “E o pior é que eu não podia reclamar, porque precisava daquele trabalho”. Assim que pôde, deixou aquela ocupação e deu início à sua atual atividade: catador de lixo.

Trabalho seguro

      Um conhecido lhe falou sobre um sujeito que fazia carretos em Pinheiros e que cobrava pouco. Adevaldo foi até lá, encomendou sua carroça e há três anos trabalha recolhendo papel, latas e ferro nos Jardins, bairro rico da cidade. Já tem “clientela fixa” em alguns dos locais mais badalados da região: todos os dias, estaciona seu carreto e recolhe bolsas com papéis e latas em lugares como o Hotel Radisson, na avenida Cidade Jardim; no restaurante Parigi, na rua Amauri; e Hotel Meliá, na rua João Cachoeira – referências famosas da região. “O pessoal gosta de mim e já separa o lixo para me facilitar o trabalho”, conta com satisfação.

      De domingo a domingo – “porque seu eu faltar algum dia o material vai para a rua e alguém acaba pegando” – Adevaldo empurra uma carroça que, quando cheia, chega a pesar entre 400 e 500 quilos. Terminada a peregrinação diária, ele leva o lixo recolhido para um ferro-velho situado na rua João Cachoeira, no bairro do Itaim. “Consigo tirar uns R$ 20,00 por dia; quando tenho sorte, chega a R$ 50,00”. Segundo Edevaldo, o ferro-velho paga R$ 0,25 por quilo de papel branco, R$ 0,08 por quilo de papel jornal e R$ 0,80 por lata de alumínio. Ele soube que outros lugares pagam melhor, mas não lamenta. “O bom de trabalhar com eles é que eu posso deixar minha carroça ali mesmo, trancada com cadeado, e voltar para meu barraco tranqüilo, de bicicleta”. Sim, ele vai e volta do trabalho todos os dias de bicicleta, mas diz não se incomodar. “Para quem puxa uns 300 quilos por dia, pedalar meia hora não é nada. E eu não fico parado no trânsito”.

Passado e futuro

      Quando relembra o passado, Edevaldo demonstra certo arrependimento. “Perdi muitos amigos para a pinga, e caí nessa besteira também”. Outro aspecto que ressalta é o desperdício de dinheiro. “Outro dia estava fazendo contas e acho que já cheguei a ganhar uns R$ 200 mil em 11 anos de São Paulo. Minha vida era para ser diferente”.

      Mas o sorriso logo volta quando pensa no futuro. “No ano que vem vou reformar minha carroça e cuidar da minha saúde. Já parei de beber e, com fé em Deus, não vou mais fazer besteira na vida”. E, de repente, revela um sonho. “Quero visitar meus pais em Limoeiro. Desde que cheguei aqui nunca mais voltei”. Adevaldo ri da ironia do destino. “Como eu mando dinheiro para minha família sempre que posso, eles acham que eu sou rico. Ninguém sabe que morei na rua. Quer saber de uma coisa? Acho que não vou contar para ninguém, não. Vou deixar eles acharem que eu venci em São Paulo”.

      Informado de que tem rendimentos que o situam acima da linha de pobreza, e de que está em melhores condições do que milhões de brasileiros, ele se anima. “Sabia que tinha gente vivendo em situação pior que a minha, mas não sabia que era tanta gente. Vou contar essa história para o meu povo lá do norte”.

      Mas ele sabe que não vai ter muito tempo para passar com seus familiares e amigos de Limoeiro. “Se eu demorar muito, alguém toma meu lugar e meus fregueses. Em São Paulo não tem moleza, não!”, ressalta, e se despede com um aperto de mão efusivo e uma piscada marota.

 
 
 
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