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Surdez, Liguagem e Aprendizagem
Por Sônia Cupertino da Jesus
Fotos: Kristal Lindo, Luis Alves e Danielle Parreiras
O primeiro contato com uma pessoa surda provoca curiosidade: como viver mergulhado em um mundo de silêncio, onde a cultura tem um grande percentual percebido através da audição? O Brasil é muito grande e diversificado, essas comunidades se diferenciam regionalmente em relação a hábito alimentar, vestuário e situação sócio-econômica, entre outros. Estes fatores geram variações lingüísticas regionais, bem como, alguns questionamentos: O que pensam as pessoas surdas? O que eles entendem? Sonham como nós? Como conseguem falar tão rápido com as mãos? Ampliar nosso universo em relação à cultura da comunidade surda nos ajudará compreendê-los melhor.
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Ana kátia, surda, estudante, trabalha pela Cooperativa de Pessoas com Deficiência como auxiliar administrativo na Prefeitura de Juiz de Fora,exemplo de inclusão social |
Márcia Goldfeld em seu livro “A criança Surda” (2002), traz uma importante contribuição para se pensar a educação da criança com perda auditiva, ao evidenciar a necessidade de uma mudança de perspectiva por parte tanto dos profissionais quanto dos pais, que convivem e/ou lidam com elas, visto que, no passado por não conhecerem bem o portador de deficiência auditiva, as pessoas os confundiam com doentes mentais. A autora nos leva a perceber que é de suma
importância reconhecer a capacidade de aprendizagem e o peculiar desenvolvimento do Surdo. Para isso é necessário conhecermos um pouco da história, bem como as filosofias educacionais e a sua forma própria de comunicação. Dentro desse contexto, insere-se a Libras (Língua Brasileira de Sinais), que já é reconhecida como primeira língua da comunidade surda, sendo a língua portuguesa considerada sua segunda língua.
A surdez é uma deficiência sensorial e não física, o que de certa forma poderia contribuir para que o indivíduo portador da deficiência auditiva, não tivesse problemas em sua socialização, porém, o que vemos é exatamente o contrário. Existem muitas dificuldades no que tange a comunicação, pois a maioria das pessoas não sabe ou não têm interesse em aprender a se comunicar com eles. Somente quem convive direta ou indiretamente, sabe o que realmente significa a surdez e quais são as particularidades lingüísticas dos sujeitos surdos. Olhando por este prisma, observamos quão importante o pensamento de Vigotsky citado por Goldfeld (1997):
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Vigotsky trabalhou e pesquisou sobre todas as deficiências, inclusive a surdez, onde ele afirmou ser a surdez, a deficiência que causa maiores danos aos indivíduos. A surdez atinge precisamente a função que nos diferencia dos animais: a linguagem e suas possibilidades infinitas de utilização dando um salto do sensorial para o racional. |
Por termos, nós ouvintes, uma linguagem fundamentada no canal auditivo-oral, utilizada pela grande maioria da sociedade, o surdo encontra aí a grande dificuldade em se comunicar. Para eles, o meio de comunicação compensatório é o gestual-visual, que utiliza movimentos gestuais e expressões faciais que são percebidos pela visão; portanto diferenciado da Língua Portuguesa, uma língua de modalidade oral-auditiva, que utiliza como canal ou meio de comunicação, sons articulados que são percebidos pela audição. Mas, seria isso um motivo suficiente para uma comunicação truncada?
A linguagem afirma a pessoa humana e a humanidade como sujeitos de seu destino. É por meio da linguagem que, na condição de indivíduos, dimensionamos o nosso mundo interior, o mundo ao nosso redor, o mundo com o qual sonhamos, também por meio dela que, a humanidade pode dimensionar seus valores, suas relações sociais, suas aspirações de justiça e liberdade. Ao realizar-se o diálogo, a linguagem nos permite ir além de nossos limites individuais e dos limites do estado de coisa existente no mundo. Ir ao encontro do outro significa sair do nosso mundo particular, expressar nossa individualidade, acolher a diferença. E transpor essa fronteira significa superar a indiferença e o individualismo da vida moderna e descobrir que na interação podemos construir e compartilhar um mundo melhor.
Uma grande barreira para o desenvolvimento de um surdo é a falta de informação dos familiares sobre a surdez. Muitos indivíduos só aprendem a língua de sinais, quando atingem a adolescência ou a idade adulta, o que retarda todo um processo de aprendizagem formal que poderia acontecer de forma natural. Outras vezes, são tratados como se manifestasse outra deficiência, como a mental, sendo encaminhados para “escolas especiais” inadequadas, que não desenvolverão suas aptidões da forma satisfatória. Porém, existem muitos avanços relacionados com a inclusão que, certamente beneficia e beneficiará a todos. Sem dúvida, existem muitas coisas para aprendermos relacionadas à surdez.
Porém, existem muitos avanços relacionados com a inclusão que, certamente beneficia e beneficiará a todos. A luta das comunidades surdas de todo o país para a superação da lógica da “adaptação” dos surdos à sociedade para o entendimento do seu direito a ser incluído no social deu resultados. Outro passo importante foi a adesão do Brasil à declaração de Salamanca, que levou o nosso país a instituir a inclusão nas escolas públicas. Embora esse seja um processo que tem muito ainda que evoluir, já possibilitou pelo menos colocar em pauta na sociedade hoje a obrigatoriedade de uma condição melhor de atendimento de suas necessidades de aprendizagem no ensino regular a partir do respeito a sua linguagem, introduzindo desde cedo as questões de respeito às diferenças. Sem dúvida, existem muitas coisas para aprendermos relacionadas à surdez. |
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