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Tonspi - Simplesmente Fotografia
Entrevista: Marcia Silva
Fotos: José da Silva Pinto (Tonspi)

Tonspi ,mas so para os amigos.
       Uma volta pela internet e um site de imagens intensas me chama a atenção. Mas surpreendente mesmo são a simpatia e a generosidade desse angolano que nos fala sobre a sua relação com a fotografia e a sua paixão pelas imagens como um artesão que se apaixona pelo seu fazer. Com seu jeito fluente de “falar/escrever” quase podemos adivinhar-lhe o sotaque.
Cheguem, entrem e fiquem a vontade...

Quando você começou a se interessar pela fotografia?

          Recordo-me ainda muito jovem, quando tinha eu talvez os meus 15 anos de idade, olhar para os jornais que o meu Pai trazia para casa e ler as “gordas” mas ficar bastante tempo a olhar para as fotografias, a imaginar como e porque teriam sido feitas. A minha iniciação na fotografia deu-se, porém, um pouco mais tarde. Aos 18 anos adquiri a minha 1ª máquina fotográfica e aí comecei a fotografar sem nenhum conhecimento das técnicas mas com imensa vontade de descobrir sempre mais e mais.

Como se tornou fotógrafo? Qual o papel da fotografia na sua vida hoje?

          Tornar-me fotógrafo foi uma decisão que tive que tomar não há muito tempo e de que não me arrependo nem um pouco. Trabalhei muito tempo em petróleos, cansei-me de andar de um lado para o outro sem poder aproveitar os momentos as viagens sem poder apreciar as coisas que me rodeavam porque passava o meu tempo a trabalhar, fechado em salas e rodeado de papelada e números ou em reuniões estéreis de todo incapazes de darem qualquer incentivo.
Há 2 anos, decidi parar com tudo isto e dedicar-me exclusivamente à fotografia. Hoje durmo tranquilo, vivo tranquilo, sonho muito e faço sobretudo o que gosto. A fotografia é mais importante que comer, dormir, é a minha vida, é o meu ar.

Quais as suas principais influências?

          Para ser honesto toda a fotografia que me “toca” me influencia. Para sermos fotógrafos temos que estar permanentemente disponíveis para ouvir, mas sobretudo para ver. Aprendo imenso com toda a gente que se dedica e ama esta Arte, desde o mestre ao aprendiz.
Sebastião Salgado, (comprei há uns dias um livro dele, o “Workers”, que folheio diariamente e encontro sempre coisas novas de que ainda não me tinha apercebido) é sem dúvida uma referencia bem como Eduardo Gajeiro. James Nachtwey é outro autor a quem dedico especial atenção.

Qual o tipo de fotografia que você mais gosta de fazer?

          Não tenho predilecção especial por nenhuma área da fotografia, não gosto de compartimentar a minha atenção, prezo muito a liberdade de escolher como, quando, onde e o que fotografo e porque fotografo. Daí ser “freelancer”, não depender de horários, não ter que seguir linhas editoriais, são as coisas mais importantes para me realizar enquanto autor, para me sentir muito bem enquanto Fotógrafo.  

          Não considero que um tipo de fotografia seja mais difícil ou mais importante que os outros, sinto que a minha fotografia é muito melhor quando saio sem destino, só, sem roteiro e sem projectos. Normalmente ando sempre com o meu saco com o meu equipamento porque sei que na esmagadora maioria das vezes a fotografia está ali onde menos se espera.  
Gosto muito de vaguear pelas ruas conhecer pessoas, conversar com elas e se possível fotografá-las.

          Nunca peço autorização para o fazer, respeito sempre e antes de tudo o mais a sua dignidade. Não me sentiria bem comigo mesmo se assim não fosse.

          Nossa revista se preocupa com a união entre a fotografia e ações sociais, você acredita que a fotografia tem alguma função social? Como isso aparece no seu trabalho?

          A fotografia tem o dever e cumpre obviamente um papel importantíssimo na denúncia, no alerta e no despertar de consciências para os múltiplos problemas, dúvidas e anseios com que somos obrigados a lidar e a viver no nosso dia a dia.

           Eu vivo num País que só muito recentemente encontrou a Paz, onde os problemas sociais são imensos e que procura ás vezes de uma forma menos própria encontrar respostas para os inúmeros desafios que urge vencer para podermos desfrutar desta Paz com Dignidade e com Esperança num Futuro melhor para todos.

           Por essa razão, todo o cuidado é pouco quando se trata de retratar a realidade de Angola. Estamos num período de reconciliação, estamos a sarar ainda as feridas deixadas pela longa guerra que nos destruiu a todos, que nos arrastou para a situação tantas vezes delicada em que hoje vivemos.

           Não quero com isto dizer que por essa razão tenha que prescindir de fotografar ou ser menos objectivo na abordagem que faço da nossa / minha realidade. Continuo a trabalhar como sempre e a única forma que penso que o meu trabalho pode contribuir para a melhoria do estado das coisas é tentar sensibilizar para já, aqueles, que por qualquer razão, ainda não se aperceberam do imenso caos e dor que a guerra nos trouxe. Para isso, procuro levar-lhes as imagens que vou fazendo do meu País, com a preocupação de não apontar o dedo a ninguém, com a preocupação de não procurar culpados.
Quero com as minhas imagens fazer sentir a todos que, Guerra nunca mais, que a Paz veio e deve ficar.

Quais as dificuldades facilidades que encontrou na sua trajetória profissional?

          Comecei a fotografar profissionalmente há 2 anos. Num país que ainda não vê na fotografia outra utilidade que não seja o registo de eventos sociais e ultimamente um pouco mais na publicidade é decerto muito complicado fazer fotografia de autor, ter possibilidades de se afirmar como fotógrafo, ter um espaço para mostrar o que se vai fazendo, daí eu recorrer à WEB para partilhar o meu trabalho.
Como freelancer tive a sorte de conseguir alguns clientes que me pagam atempada e condignamente o que permitiu antes de mais adquirir equipamento profissional que me dá a possibilidade de desenvolver o meu trabalho com qualidade, de poder crescer e melhorar o meu trabalho.

           As maiores dificuldades que ainda hoje sinto são como dizia e pelo facto de ser freelancer, o acesso à rua. Muitas vezes sou impedido de fotografar (sobretudo em Luanda) porque não trabalho para nenhuma publicação, logo não possuo nenhum cartão que me identifique como fotógrafo.

           Ás vezes, sou levado ao posto de polícia para explicar a razão porque estou a fotografar, outras vezes sou insultado pelas pessoas, outras vezes ainda, pedem-me que pague pequenas quantias para poder fotografar esta ou aquela pessoa este ou aquele edifício, o que sempre recuso. Não está em causa o dinheiro, estão em causa sim, princípios que entendo não dever abdicar, porque como já disse mais do que uma vez não sou comprador de lágrimas muito menos pago pelos sorrisos.

O que você gostaria de dizer para as pessoas que estão começando?

          Eu começo todos os dias. Sempre que saio com o meu equipamento começo sempre qualquer coisa nova. Sei que estou a aprender permanentemente não tenho a veleidade de tudo saber.

A mensagem para os que estão a iniciar-se nesta Arte, resume-se a:
- trabalho (muitas horas a ver trabalhos dos outros, muitas horas de saco ás costas).
- curiosidade (tentar ver sempre mais e o outro lado das coisas. Procurar permanentemente).
- disponibilidade (fotografia não tem hora, nem local nem requer que se possua o melhor equipamento do mundo, contudo, conhecermos muito bem o nosso equipamento é indispensável e a melhor maneira de obtermos bons resultados).
- respeito (por si próprio e por aqueles que fotografamos).
- amor ( só se fotografa bem quando nos entregamos de alma e coração).
- perseverança não (desistir nunca, não baixar os braços quando os resultados obtidos estão aquém das expectativas. Com muito trabalho e sensibilidade q.b. os bonecos espectaculares acabarão por aparecer).
- e por fim espírito crítico (saber ver o que fazemos e sermos capazes de perceber onde é que falhamos. Reconhecer os nossos próprios erros é meio caminho andado para os evitar no futuro).

Não há boa ou má fotografia.
Há simplesmente Fotografia.

José da Silva Pinto (Tonspi para os amigos)

 
 
 
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