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TOCs de amor: a história de um rapaz que conseguiu vencer a doença.
Depoimento à Fábio Pereira

foto Simon des Forges

        Meu nome é Rodrigo Amaral, tenho 20 anos de idade e esses vinte anos já me renderam muitas experiências e histórias prá contar. Desde o meu nascimento que, aliás, por si só já é uma delas, pois na hora do parto forçaram por algum motivo minha Mãe à atravessar um corredor inteiro até o leito.

        Havia ali sem duvida, negligência médica. Passei da hora de nascer. Fiquei alguns meses na incubadora e foi necessário bastante tempo mesmo, pois meu estado era muito crítico, mas apesar dos contratempos conseguir por fim sobreviver.

        Tive uma infância ruim na escola meu desempenho era dos piores. As pessoas e, inclusive meus pais, sempre viam em mim algo que lhes motivava demais para me “Criticar”.

        Sentia-me sempre muito excluído da vida de todo mundo. Regredia no que aprendia na escola. No entanto, acreditavam que era só de pirraça ai então me tratavam com afiado desdém, me endereçavam olhares como se eu merecesse a mais cruel das penitências ou como se eu fosse uma tenebrosa criatura que faz por merecer, todo o desprezo do mundo. Enfim, tudo aquilo era tão frustrante quanto vergonhoso e o que é pior: angustiante.

        Era um desgosto só, não agradava ninguém. Pra mim, nada fazia o menor sentido quando pensava naquela vida que eu levava, se é que aquilo pode ser chamado de vida, creditava que não havia porque levar alguma coisa e sério, essas coisas que a gente quando criança tem a obrigação de fazer.

        Aos nove anos, sofri o que considero ser o auge de todo aquele drama: A separação dos meus pais. Meu Deus! Aquilo caiu como uma bomba! Foi um choque realmente, e isso muito contribuiu para que o meu transtorno psíquico se agravasse ainda mais. Na época eu já cursava a 2º série do ensino fundamental (a propósito repetente). Via o fato de ter chegado a segunda série como milagre, pois do jeito que as coisas andavam eu acreditava que não conseguiria sair do jardim de infância.

        O tempo passou e tudo continuava na mesma, só que dessa vez como se não bastasse todo o meu sofrimento tinha uma verdadeira megera que destila todo o seu impiedoso veneno letal ao primeiro que aparecer: uma Madrasta.

        Eu pensava que aquele negócio de que a Madrasta é sempre tão nefasta e tudo mais, era pura ficção como costumava ler nas historinhas infantis e tão bem retratada no conto da “Branca de Neve”. Do jeito que aquela mulher era, fez mesmo com que eu chegasse à conclusão que as Madrastas da vida real são tão más quanto as da ficção pelo menos no meu caso foi assim. Justamente por essa razão quero esquecer essa fase de minha vida.

Solidão-foto Josie Reavely

        Chego então à adolescência com muitas e tantas coisas desagradáveis herdadas da infância. Mas eu tinha minhas convicções baseada em fundamentos filósofos até e, em virtude disso, às vezes acabava por me livrar dos “abismos” circunstâncias que a vida estabelece naturalmente.

       Chequei a passar fome, nessa época, por um lado fui sim feliz, mas havia ao mesmo tempo a rotineira angustia. Então comecei a trabalhar num pequeno cultivo rural e o local de trabalho era muito distante. Era uma estrada de terra na qual trafegavam a todo instante veículos de grande porte pois naquelas redondezas havia empreendimentos industriais. A tarefa então começava árdua e terminava árdua: trilhava a tal estrada por uma poção de quilômetros a fio, numa bicicleta em péssimo estado o que tornava esse intento ainda esgotante durante o verão a poeira se sucedia implacável no inverno era um lamaçal miserável. Eu imaginava que não havia no mundo tarefa pior do que aquela.

        Sempre tive uma boa aptidão para o esporte, tanto que no ano de 2002, comecei a praticar Kung Fu. A principio, quis desistir por falta de recurso financeiro, mas dei um jeito e acabei continuando e com o tempo já me utilizava dessa artimanha chinesa.

        No mesmo ano decidi voltar para a escola. Foi bom, pois esse ambiente propicia fazer novas amizades e ai fiz muitos amigos.
 
        Mas o que sempre esteve em mim como transtorno – o que muito depois seria diagnosticado como transtorno obsessivo compulsivo – fazia com que eu me tornasse mal visto. É! Era aquele transtorno que com muita certeza já o tinha sentido nos meus primeiros dias de vida.

        Havia uma ansiedade imensa, que martelava o tempo todo impiedosamente. Constantemente dava sinal pavoroso no comportamento, ora até mesmo por uma razão nada mais do que banal e outras vezes por nada, ou seja, esses males emergiam instantaneamente. Em meio isso tudo, havia fortes tendências suicidas, uma típica situação em que eu visse necessidade de usar entorpecentes. Havia também muita depressão.

        Meu pai concluiu que era preocupante, quanto percebeu a densidade do problema, mas ele não entendia nada e, nada entendo, não teria as exatas palavras pra me dizer achou então que era eu quem devia botar um ponto final por livre e espontânea vontade, o que não seria possível jamais, e que depois de um certo tempo passou a cobrar isso de mim com exagero.

        Foi então uma sombria tarde de domingo tivemos uma esperada troca de palavra, palavras duras, palavras que eu nunca pensei que um dia chegaria a lhe dizer, ele por sua vez fez ameaças, ameaças não tão graves assim, afinal ele é meu pai e não um desconhecido. Na mesma hora decidi. Voltaria pra casa da minha mãe.

Mais Solidão - foto Adam Ciesielskis

        Mas muito antes disso fiz o que pude para agradá-lo, vários artifícios, como por exemplo, certo dia – porque ele sempre quisera um filho que se dedicasse em mecânica de automóveis. Comecei como aprendiz passado algumas semanas notei e, era mesmo notório, que o patrão era estupidamente extravagante, pensei: Se ele for pro buraco vai acabar me levando junto, já que tinha inteira influência sobre os empregados. Saí.

        Depois de uma quinzena e meia, no inicio de 2003, resolvi partir pra outra oficina, essa agora era bem remunerada, mas não dei sorte, o patrão era um verdadeiro carrasco, um passo em falso e aí ouvir todo e qualquer tipo de desaforo, calunias, infâmia, injúrias. O homem praguejava aos quatro ventos. E outra vez, saí.

        Passei um bom tempo lamentando, mas não pensei em momento algum, desistir. E outra oportunidade enfim, apareceu. Engajei. Pois por mim teve estima, esse passou a me tratar como alguém da Família dentro de pouco tempo. Nos fins de semanas e feriados reunia todos os funcionários e farreava o quanto podiam e o quanto pudesse gastar. No inicio eu não quis me envolver à esse ponto. Mas depois surgiu intimidade o bastante para que isso acontecesse. A essa altura a mãe de sua esposa estava de aniversário viajou as pressas com toda a gurizada.

        Alugou uma pequena casa ao redor daquela cidade e trouxeram umas meninas depois de uma festa. Envolvi-me com uma delas. Tinha 30 e eu, na época 16. Mas disso não ficou nada que eu considere essencial, penso nisso como algo que aconteceu forçadamente. Não foi uma coisa espontânea.

        Foram esses os fatos antecedentes daquele domingo, quando depois de ter me desentendido com meu pai acabei decidindo ir embora: Na vinda tive que andar a pé todos aqueles quilômetros entre uma cidade e outra quando cheguei, completamente exausto, minhas pernas pareciam do tamanho do mundo.

        E o meu transtorno chegou ao ponto Máximo: Estava preste a ter colapso psíquico. Minha Mãe fez o seu papel e procurou uma psicóloga. Depois de várias consultas e exames, concluíram: TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Começou então a parte do tratamento, pra mim fundamental: receitaram a principio dois tipos de remédio com um teor bem elevado de drogas controladas. Os resultados: vejo isso como uma espécie de ressurreição.

        Hoje nada disso acontece mais. Minhas doses de remédios baixaram mais da metade e estou preste a receber alta. Trabalho para uma agência de Telemarketing e como é só meio expediente posso ao mesmo tempo estudar e a já fiz grandes amigos, o principal dele é um que se chama William Coelho.

        Aprendi a dar valor nas pequenas coisas, pois são elas que valem mais, tenho conceitos novos com relação a várias coisas e nenhum deles é distorcido e não há semelhança alguma com os de antes que eram resultados de uma mente insana por inteira.

        Visito o meu pai, vez por outra, porque por ele ainda sinto tudo aquilo que os filhos costumam ter pelos pais, sentimentos esses que desenvolvidos ninguém no mundo por mais sórdidas que sejam as relações, não é capaz de fazer desaparecer.

Agradecimento especial a  Paulo Cordovil e cybercafe connection

 
 
 
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