Edição 17
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Angola: uma história de amor e guerra, a vida de Filomena Carreira
Por Monica Marinho
Fotos arquivo FICAR
 

       A guerra acabou na República de Angola. Após quase 30 anos de conflitos internos, o país, localizado a sudoeste da África e com capital em Luanda, começa a sentir o gostinho da paz. Esse novo clima começou após a morte do líder rebelde da UNITA (União Nacional da Independência Total de Angola), Jonas Savimbi, em fevereiro de 2002. O desmantelamento da facção culminou em um acordo de cessar-fogo, em abril, entre os guerrilheiros savimbistas e o governo. Graças a esse acordo, foi possível, pela primeira vez desde 1975, uma conversa diplomática entre oficiais rebeldes e autoridades governistas.

       Foi com muita alegria que, do Brasil, a ex-refugiada angolana e humanitária Filomena Carreira, 46 anos, comemorou esse acontecimento histórico em seu país. Ela, que viveu o início da guerra, há 32 anos, não esquece os dramas pelos quais passou nos oito primeiros meses de fogo cruzado entre os três principais partidos angolanos: MPLA, FNLA e UNITA. Esse tempo foi suficiente para passar fome, ver amigos morrerem e ser assediada sexualmente.

       "Fui dormir rica e acordei pobre. Meu pai, um renomado engenheiro civil, não acreditava muito nos rumores de uma possível guerra e não se preparou para o pior. Muita gente já estava estocando alimentos e outras até saindo do país. No mercado, cada pessoa só tinha direito a uma peça de cada produto, as filas eram imensas e a briga por comida era algo animalesco. Apenas uns poucos estabelecimentos estavam autorizados a comercializar, e mesmo assim sob a supervisão de soldados. Eu cheguei a roubar para conseguir comida e até a arriscar minha vida por um cacho de bananas", conta Filomena Carreira.

       Com a situação cada vez pior e com a família visada pelas tropas, uma vez que eram considerados pelos três partidos como "resquícios da colonização", devido a cor branca herdada dos descendentes portugueses, o pai de Filomena resolveu planejar uma fuga. As pessoas que ocupavam uma posição de destaque em Angola, como era o caso do Sr. Luís Carreira, estavam proibidas de deixar o país. Só conseguiam viajar depois de muita conversar e dando garantias de que retornariam. A garantia do pai de Filomena foi a família. Com alguns diamantes escondidos, ele viajou para o Brasil e preparou o terreno para que mulher e filhos pudessem recomeçar uma nova vida.

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