Edição 18
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Estou fazendo amor com outra pessoa
Texto e ilustração: Júlia Gojtan
 

      São Paulo, 3 da tarde de um dia particularmente abafado de verão. Voltar para casa da faculdade. Mas que droga não ter a carta de motorista. Pois é, lotação é o jeito. Meu santinho, como é possível socar tanta gente dentro da mesma van?

      Todos os dias as lotações dessa metrópole brasileira desafiam as leis da Física. O mais curioso em viajar com tal condução, é que o motorista é geralmente o dono do veículo e se julga no direito de decidir absolutamente tudo: a velocidade, muitas vezes também o trajeto, e até a música que todos têm de ouvir sem protestos. Pagode é abertamente o estilo favorito neste caso.  Ótimo. Pelo menos três sovacos liberadores da mais nauseante catinga cercam a estudante e preenchem seus pulmões a cada respirar. Até este ponto da jornada, nada fora do comum.  Eis que de repente surge um fusquinha tão veloz que mal se pode dizer qual é a cor da lataria, costurando toda a avenida. A lotação não é exceção e numa manobra radicalíssima também é cortada. Bonus: risada maquiavélica do barbeiro.

      O nosso guia agora está visivelmente "p da vida" – esmaga o acelerador sem misericórdia nenhuma com as (pelo menos) 27 vidas que leva consigo, e persegue o atrevido. Nas curvas, metade do carro fica suspenso no ar. Uma sinfonia de buzinas soa
suavemente conforme os outros carros são ultrapassados. Alguns passageiros reclamam e xingam, outros berram – ele não os ouve. Está numa dimensão paralela, onde vê tudo em vermelho, onde não existe mais nada além de si e seu alvo: o fusca.

      O farol do grande cruzamento logo a frente fecha. Ambos tem de parar, um ao lado do outro. Momento de grande tensão. O motorista da lotação abandona seu posto e, bufando, vai ter com o dono do fusca. Troca de ofensas às respectivas mães em máximo volume. Todos os passageiros se espremem nas janelas do lado direito para ver o que se passa. Alguns inclusive dão suas opiniões na discussão, colocam seus braços para fora e gesticulam, mas ninguém desce do carro – já que é preciso passar pela catraca e pagar passagem toda vez que se embarca. Mas que cena única para quem vê de trás! Uma van com vários braços e algumas cabeças para fora movimentando-se à extrema potencia da desordem....

      “Estou atrasado para uma entrevista de emprego, Seu motorista”, diz um. “Ai Virgem Maria, me deixem descer!”, fala uma senhora sem receber resposta. Ela então segura firme o crucifixo de seu pescoço e começa com um Pai Nosso. Em poucos segundos o farol torna-se verde, e os carros de trás querem, obviamente, passar. O barulho que se segue é indescritível, uma mistura de diferentes vozes soltando a mais vasta variedade de palavrões, buzinas de todos os tipos. E na surrealidade completa da situação, do rádio da lotação ouve-se a melodia:

"Estou fazendo amor
Com outra pessoa
Mas meu coração
Vai ser pra sempre teu..."

A estudante chega em casa uma hora e meia depois.
"Como foi seu dia, filha?"
"Normal, mamãe."

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