Edição 19
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A TV e a Cultura
Por: Márcia Silva
 
Clara - Personagem com Síndrome de Down

     A televisão é sempre uma temática polêmica: há os que a amam e os que a odeiam. No entanto, nenhuma das duas atitudes nos auxilia a entender o papel que ela exerce na vida dos brasileiros. Porém, estudiosos dessa questão apontam que os usos que a população faz das informações e imagens da telinha nem sempre coincidem com as intenções dos que as produzem.

     No Brasil houve uma expansão intensa da TV, especialmente no período da ditadura, o que colaborou para uma imagem freqüentemente relacionada à manipulação. A maior rede do país cobre cerca de 99% do território nacional, além de atingir brasileiros em várias partes do mundo através de canais internacionais, colaborando  para a formação da identidade nacional.
Pensar sobre a participação da TV na Cultura Nacional é a proposta dessa coluna, que nesta edição destaca um produto em especial: a novela.

     Inicialmente ligada à imagem da dona de casa ou ao lazer das camadas com menor renda e escolaridade da população, a novela há muito rompeu as barreiras sociais e consegue mobilizar todo o país para saber quem matou Odete Roitman! Quem vai ficar com a Senhora do Destino, e assim por diante...

     Nos últimos anos temos acompanhado uma nova tendência na produção de novelas. O foco em questões sociais. Embora temáticas sociais sempre tenham sido abordadas, o que difere no contexto atual é que agora são apresentadas de forma “pedagógica”, entremeando cenas da “vida real” com as da trama dramática.

Daniel Oliveira interpretou um cadeirante em Malhação

     Terminou este mês a novela de Manoel Carlos, “Páginas da Vida”, cujo tema principal foi abordar a Síndrome de Down. Anteriormente a autora Glória Perez já havia enfocado o tema da deficiência visual, causando comoção nacional e abrindo espaço para a discussão das diferenças e da inclusão social de pessoas com deficiência.

     A tendência já vinha sendo seguida, por exemplo, na novela “História de Amor”, do próprio Manoel Carlos, em que a personagem de Nuno Leal Maia sofre um acidente e perde definitivamente os movimentos das pernas. Isso se torna mais dramático porque se tratava de um esportista. Na novela “Malhação” o ator Daniel Oliveira interpretou um adolescente que, após um acidente de carro, vira usuário de cadeira de rodas. Nos dois casos a novela colaborava fornecendo informações a respeito de como lidar com as limitações e necessidades desses personagens, dirigidas a públicos diferentes, com linguagens adaptadas.

     Se puxarmos pela memória vamos ver que a deficiência sempre foi esteve presente nos folhetins; porém, era usada muito mais como um recurso dramático que como uma discussão social. Quando associada ao “bandido”, funcionava como castigo (a própria novela “Páginas da Vida” recorreu a esse subterfúgio ao tornar louca a personagem Marta, interpretada por Lilia Cabral). Quando associada ao “mocinho”, ela era temporária (como a paralisia da personagem interpretada por Regina Duarte em “Selva de Pedra” ou a cegueira da personagem Foguinho em “Cobras e Lagartos”).

 
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