A alegria da menina é ir com a avó para a igreja aos domingos. Lugar interessantíssimo, cheio de figuras e pinturas antigas e vitrais coloridos. A imaginação da pequena a leva longe. A cada visita os personagens desse ambiente misterioso vive uma aventura deferente. Os olhos dela piscam e registram os mínimos detalhes. Mas não entendem tudo. Porque aquele homem tem furinhos nas mãos? Porque os padres usam saia? Porque isso, porque aquilo? A avó sempre muito paciente responde a todas as perguntas e fica contente com o interesse dela.
A primeira pergunta deste domingo soa logo na entrada do prédio: “Prá que são aquelas velinhas acesas no altar?” A sábia vovó explica baixinho que são pedidos de pessoas para Deus. Deve-se por uma moedinha na bacia para pagar pela velinha, acendê-la, fazer um pensamento bem forte e orar para que Ele ajude. Os olhos da neta cintilam, e surpreendentemente nenhuma outra questão é formulada até o final da missa.
Como toda semana, as senhoras se encontram em frente à igreja após a cerimônia para se cumprimentar, trocar novidades, bater papo. Pior hora do dia para a menina, que tem sua bochecha comprimida por pelo menos 5 pares de dedos secos e gelados com longas garras pintadas. Ela então resolve evitar o incomodo e anuncia para a avó que vai brincar um pouco com as outras crianças.
Passam 20 minutos. Passam mais trinta. Não há mais o que conversar e as senhoras despedem-se. Mas onde se meteu essa menina? As crianças também já se foram e ela não volta. A avó se põe a procurar a escapulida. E onde ela está? Junto às velinhas, claro. “Minha neta, você acendeu todas as velas novas disponíveis?!”, espanta-se ela. “Mas eu tenho muitos pedidos. Pedi para não ter mais lição de casa, poder comer bolo de chocolate todos os dias, ganhar um ponei, uma varinha mágica de verdade igual à do Harry Potter, uma coroa de princesa, um quarto com passagem secreta... eu também fiz um pedido pra você. Uma televisão que só passa novelas o dia todo.”
A visão do rosto da menina transbordando animação e alegria quase impedem a avó de fazer expressão séria. Mas ela se esforça, e com as mãos na cintura diz em tom de bronca: “E quem vai pagar por essas 50 velas, mocinha?” A menina devolve um olhar de não-é-óbvio? e responde: “Não se preocupe vovó. Usei as últimas 2 velinhas especialmente pedindo para Deus pagar por todas as outras”. Muito lógico!!! |