"A Ditadura dos Generais" pode ser considerado uma doce vingança, já que o senhor esteve entre os 120 mil brasileiros que sofreram nos porões da ditadura?
Guardar mágoa seria muita pequenez. Meu livro é uma análise histórica que fiz serenamente, como estudioso da sociologia e da história dos povos latino-americanos. Olho pra frente, décadas pra frente. É uma contribuição que presto para as futuras gerações do meu país. Como escritor, a gente tem mais liberdade de expor o que pensa. E vejo esta obra como uma contribuição para a sociedade. Ela não foi construída em vão.
No livro, o senhor analisa os fenômenos que produziram o militarismo na América Latina e, depois, o nazimilitarismo. Qual a diferença entre os dois sistemas?
O militarismo é uma deformação do militar, uma excrescência. E o nazimilitarismo é uma deformidade do militarismo, uma forma mais cruel, que transformou tortura e genocídio em atos institucionalizados do Estado. Só o nazimilitarismo fez isso. É um fenômeno que surgiu na América Latina e atingiu países da Europa, como Portugal, Espanha e Grécia. Já o militar é a pessoa investida de poder para exercer a força, salvaguardando a pátria, a democracia, a Constituição.
De 1964 a 1985, a Presidência do Brasil foi ocupada por cinco generais. Existem muitas diferenças entre a ditadura brasileira - de vários rostos - e as que são personificadas em uma única pessoa, tanto as de direita, Pinochet (Chile) e Salazar (Portugal); quanto as de esquerda, Stalin (União Soviética) e Fidel (Cuba)?
O regime torna-se truculento porque o poder do Estado fica nas mãos de alguns. Quando este poder transcende as leis, o comandante do Estado torna-se um semi-deus, olhando o povo como mero súdito. E, quando os súditos insurgem-se contra o poder, acontecem as deformidades, crimes hediondos, os desaparecimentos e as torturas difamantes, que são características da América Latina. As pessoas eram presas e torturadas moralmente, enfiando-se objetos no ânus, na vagina. Muitos presos eram obrigados a assistir a esposa e as filhas sendo estupradas. Isso aconteceu aqui quase como norma. Nem o Nazismo e o Stalinismo fez isso. E o desaparecimento dos presos, como decisão do Estado, é um crime que a humanidade desconhecia até o século passado. Nesta modalidade, pune-se a vítima e seus entes queridos. O direito de cultuar o morto era negado nas ditaduras latino-americanas.
|