Edição 24
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direto no olhar
Quando a Escola vai até as crianças – uma experiência de valorização dos alunos de classes populares
Texto: Regiane P. Basso
Foto: William George
Foto: Wiliiam George

       Logo que me formei no curso de Pedagogia, fui trabalhar em uma EMEI (Escola Municipal de Educação Infantil) e, no final daquele ano, prestei um concurso para atuar como pedagoga numa cidade da grande Curitiba.

       Fiquei muito feliz quando soube da aprovação e fui com a cara e a coragem dar aula em uma cidade maior, onde não conhecia ninguém. Estava cheia de sonhos e expectativas sobre o que me aguardava. Acabei escolhendo uma escola na periferia da cidade, mas que não ficava tão distante do centro.

       A recepção, no entanto, não foi muito calorosa, pois em sua maioria as professoras eram mais velhas e tinham muito mais experiência que eu. Soube depois que algumas tinham tentado o mesmo concurso que eu, mas não passaram.

       Diante disso, resolvi fazer um trabalho que ajudasse as professoras e não provocasse muitos ciúmes. Como estava terminando a especialização em educação especial, resolvi estudar a Sala de Recursos que lida com crianças com dificuldades de aprendizagem.

       Esse trabalho me proporcionou uma visão mais abrangente da função desse trabalho na escola como também do próprio trabalho das outras professoras. Afinal, quem eram aquelas crianças? Porque estavam ali? Como ajudá-las? Estas foram as perguntas que me guiaram e me fizeram refletir um pouco mais sobre aquela realidade. Quem eram essas pessoas? O que a escola lhes oferecia? Será que era o suficiente?

       A comunidade atendida é bem carente financeiramente, constituída principalmente por operários, profissionais autônomos, como pedreiros, eletricistas, serventes de obra, pintor; as mulheres são, em geral, empregadas domésticas ou donas de casa. Muitos, ainda, são catadores de lixo reciclável ou desempregados. Muitas famílias moram próximo ao rio que faz divisa entre os dois municípios que, quando chove bastante, provoca enchentes, ilhando os moradores em suas casas e não permite a ida dos alunos à escola nestes dias. A ocupação dos terrenos à beira do rio é ilegal e feita de forma invasiva, devido às condições econômicas dos moradores, pois são áreas de manguezal.

       A maioria dos moradores e pais de alunos é formada por  pessoas com baixa escolaridade e muitas famílias não dispõem de condições para auxiliar os seus filhos nas tarefas escolares. A falta de escolaridade impede não só o acompanhamento da educação dos filhos, como também o acesso a informações (atendimento aos alunos com especialistas) e a trabalhos com maior remuneração.

       Alguns serviços como posto de saúde e assistência social só são encontrados em outros bairros relativamente distantes. O acesso ao bairro para quem não tem carro também não é fácil. O transporte coletivo, exceto nos horários em que os trabalhadores saem e voltam do trabalho, é feito de hora em hora num percurso que acaba tornando a viagem longa e cansativa.

       As famílias que constituem a comunidade são formadoras a partir do modelo tradicional (pai, mãe, filhos); outras por mãe e filhos e muitas são representadas por avós que cuidam dos netos porque os pais trabalham. Algumas crianças, ainda muito jovens, enfrentam grandes responsabilidades, tendo de cuidar de uma casa e dos irmãos, porque não  têm a mãe presente, seja porque faleceu ou, então, foi embora devido a situações de violência, prejudicando emocionalmente os filhos.

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