Edição 24
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vida normal
Confirmação: o seu e-card foi lido.
Por: Júlia Gojtan

          A moça está apaixonada. Faz 3 dias já. Alguém se lembra como é? A noção do tempo fica deficiente, assim como a audição, visão, raciocínio... O e-mail do trabalho se torna o escape para esse outro mundo, no qual se flutua ao invés de andar, e só há duas pessoas nele: ela e ele. Suspiro.

          Infelizmente ela tem uma viagem internacional de negócios marcada para a próxima semana inteirinha. Há chances de sobrevivência? Com reuniões o dia todo ela não terá tempo para telefonar para o seu amado, e o fuso-horário de 7 horas não vai ajudar nem um pouco. E-mails são novamente a solução... não, que tal fazer um mimo ao príncipe e mandar e-cards? Antes mesmo de ir viajar a moça dá inicio à caça aos cartões eletrônicos mais românticos da net. “Genial, através deste website é possível escolher a data em que o cartão é enviado! Posso mandar hoje 7 cartõezinhos, um chegando a cada dia da semana que vem!”

          E assim ela o faz. Pré-programa os e-cards para os próximos 7 dias. “Agora não preciso me preocupar, pois meu docinho de coco vai ter pelo menos uma mensagem para lembrar de mim todos os dias!” Algumas das mensagens escritas:
“Mal posso acreditar que estamos separados. A vida está tão cinza sem você! Que saudade.”
“Meus olhos buscam os seus em toda a parte. Por que não posso estar nos seus braços agora?”
“Como vai você, docinho? Queria confessar que te amo!” 

          Realmente ela tem razão. Não sobra um segundo para a vida particular. “Mas não tem problema, hoje ele recebe uma mensagem minha e provavelmente vou ganhar uma resposta deliciosa quando for checar minha caixa de entrada no computador do hotel.” Suspiro. Caixa de entrada vazia. “Bom, hoje ele não teve tempo, normal”.

          Dia seguinte: caixa de entrada vazia, pelo menos sem mensagens dele. Próximos dias: nada, nada, nada. Que irritante! Como o fulano tem coragem de ler mensagens tão meigas e não responder nem um “oi”? OK, no último dia ele manda um mísero “olá, como vai?”, que ela faz questão de não responder. Ele nem ao menos menciona os cartões ou se justifica por não ter escrito antes! Biltre.

          Ela volta da viagem, já desiludida com a relação, cara de trovoada. Uma atitude dessas na segunda semana de namoro, imagina em um mês! Quando o encontra ele também está como rosto sério. Poxa, não sentiu a menor falta minha mesmo...

          Eles vão a um restaurante. Não trocam palavra por mais de 10 minutos. Ela finalmente quebra o silêncio e diz que durante sua viagem percebera que é melhor os dois serem apenas bons amigos. Ainda apaixonada, mas orgulhosa demais para a verdade inteira. Tanta gente se estapeando para um encontro com ela, tantos admiradores em aberto, lisonjeiros, e o felizardo que ela quer assim tão frio. Melhor terminar mesmo. A frieza com que ele concorda com sua frase coroa sua decisão. Melhor terminar mesmo.

Um mês se passa.

          Como todos os dias de manhã, ela abre o Outlook e checa a caixa de entrada. “Confirmação: seu e-card foi lido” Só agora? Nem abre a mensagem. Pro lixo direto! Dia seguinte, caixa de entrada, “Confirmação: seu e-card foi lido”, pro lixo direto. Dia seguinte, caixa de entrada, “Confirmação, seu e-card foi lido”, pro lixo di... “Espera um pouco, deixa eu dar uma olhada nisso.” Ela vê que em suas programações para os cartõezinhos havia posto o mês seguinte por engano. Lembra do que escrevera. Agora ele deve estar lendo “Mal posso acreditar que estamos separados. A vida está tão cinza sem você!” Mas que m...!

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