Edição 26
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Palavras que alimentam...
Por: Sandra Mara Oliveira Souza

       Um brinde às coisas simples da vida. Eis uma possível definição para a agradável companhia proporcionada pela poesia de Jessier Quirino, nos CDs Paisagem de interior 1 e 2, dentro do projeto Vez da Voz, Edições Bagaço.

       Natural de Campina Grande, o poeta que se define como “um palavreiro da Paraíba” fala da terra, de sentimentos e, principalmente, do cotidiano simples da vida interiorana. Na verve desse contador de “causos”, o nordeste se descortina tal qual lona de circo mambembe, em todas as suas idiossincrasias.

       As feiras, com seus ritmos e sons, adquirem status de suítes, com direito a primeiro, segundo e terceiro movimentos. A saudade da terra natal, o desejo de retorno do matuto que está no Sul e a preocupação social são temas recorrentes na obra de Jessier, que também parece reviver a meninice em poesias cômicas e cheias de malícia.

      Apesar da beleza dos versos do poeta, a verdadeira paisagem para a qual nos remete a poesia parece agora invisível aos olhos da sociedade, constituindo-se num universo de riqueza inestimável, geralmente subestimado pela academia - que ainda conserva o ranço do formalismo livresco -  e desprezado pelos meios de comunicação social - que tem como tônica principal a prática cotidiana da fragmentação. Trata-se da cultura popular, instrumento dinâmico de produção simbólica que emana do povo e se constrói de forma múltipla e heterogênea como uma contra-proposta aos meios de produção cultural em grande escala. Afinal, uma pergunta paira no ar: qual o lugar da cultura popular em nossa sociedade? 

       A cultura popular resulta do esforço criador e recriador do homem, do resultado de seu trabalho e da sua relação com o mundo. Esse processo, enquanto construção de conhecimento, revela-se algo crítico e construtivo, o que possibilita atribuir a esse mesmo homem o papel de sujeito, de fazedor desse mundo cultural.

       Dessa forma, o lugar da cultura popular é o cotidiano. E,  se pensarmos que no Nordeste esse cotidiano é representado pelas paisagens, pela musicalidade, pela simplicidade de um povo e pelas lutas inglórias contra as agruras naturais e fabricadas, a cultura está aí também impregnada, prestes a emergir sob as mais diversas formas: cantada, declamada, escrita, contada e até calada.

       É fato que nessa sociedade dos exageros, da fugacidade, da “globalidade', não é hábito nosso procurarmos nas pequenas e simples ações as sementes de grandes eventos. Esperamos sempre a legitimação de alguma “instância superior” para atribuir valores àquilo que vemos, lemos ou ouvimos. Uma vez que as nossas maiores referências estão nas TVs e rádios comerciais, pode-se inferir que a cultura popular, não tendo divulgação, também não se faz notar,  ou pelo menos não retorna com a mesma força com que foi gerada.

       A arte é uma forma de expressão das experiências que os homens têm através dos sentimentos e da imaginação. Com efeito, o pleno desenvolvimento das capacidades subjetivas é mediação insubstituível de humanização. Nesse momento emerge o poder transformador da Educação. Não como algo que se dá ou que se recebe, mas como algo que se vive conjuntamente.

 

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