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| foto: Dagmar Zimova |
Um pai atrapalhado fazendo a troca da fralda da filha, o pai finalmente consegue trocar a filha... uma voz em off diz o preço da fralda, chupeta, vestido, garantindo que tudo isso pode ser comprado com cartão de crédito, porém ouvir a filha dizer “papai” não tem preço! Esse é o mote de um conhecido comercial de TV. Logo em seguida o telejornal anuncia: um médico que deformou uma paciente durante uma lipoaspiração foi denunciado ao PROCON e condenado a pagar uma indenização por não ter prestado o serviço corretamente. A seguir a notícia de que o país já tem projetos inscritos no mercado de seqüestro de carbono. Aparentemente as três situações estão apenas justapostas, mas fazem parte de um mesmo contexto – o da mercadorização dos vários aspectos da vida.
O país é signatário do tratado de Kyoto, que preconiza a adoção de medidas para a diminuição de emissão de gases poluentes na atmosfera como uma das medidas para tentar reduzir o aquecimento global. Dentre elas está o mercado de carbono. Trata-se de estabelecer metas de redução da emissão de carbono, ou seja, as empresas que economizarem além das suas metas podem vender o excedente no mercado. Os créditos poderão ser comprados por outras empresas que ainda não conseguiram cumprir suas metas. A idéia é que as emissões de poluentes sejam reguladas através da via econômica. Em favor dessas medidas argumentam alguns que essa é uma maneira de redistribuição da renda, uma vez que os países menos poluidores são aqueles menos ricos.
Uma parada para reflexão... o que compra aquele que compra crédito de carbono? O que vende quem oferta créditos?
Quem compra os créditos compra o direito de continuar poluindo desde que invistam, por exemplo, na plantação de árvores. Que árvores? Plantadas em que lugares? Com que chances de sobrevivência? Que investimento é feito contra o desmatamento? Que investimento é feito contra a produção de carvão? Que investimento é feito contra a pobreza nessas regiões? Que investimento é feito na pesquisa para a fabricação de materiais menos poluentes? Muitas empresas se auto-intitulam “com responsabilidade social” produzindo materiais recicláveis. No entanto, não se responsabilizam pelos resíduos ou pela reciclagem dos produtos que vendem. O mercado se encarregará de criar empresas para isso.
As ações baseadas somente na economia traduzem uma visão de sociedade orientada pelo mercado defendida por teóricos como Hayek, para quem o mercado deve ser o princípio fundador, unificador e auto-regulador da nova ordem econômica e política mundial. Nesse sentido, cada vez mais coisas que eram antes colocadas como direito se transformam em bens de consumo passíveis de serem comercializadas pelo mercado. Por isso o erro médico já não é uma questão de direito à vida, mas sim uma disputa comercial que é regulada pelo código de defesa do consumidor como uma relação de serviços. As conseqüências de uma operação malsucedida no corpo da pessoa atendida, as seqüelas e sua eventual morte são uma questão de quebra de contrato em relação à promessa de resultados dos serviços oferecidos ou simplesmente de “propaganda enganosa”. Que valor tem a vida? Que valor tem a ética? Nesse caso o médico poderia processar a escola que o formou por não tê-lo habilitado como certificou - já que tudo se reduz a uma relação de prestação de serviços?
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